Vários analistas já caíram na tentação de compararem o processo que esta terça-feira tem início em torno do ex-presidente Donald Trump com o que sucedeu a Al Capone em 1931: depois de quase duas décadas a liderar um dos mais selvagens sindicatos do crime, foi acusado por fuga aos impostos e sentenciado a 11 anos de prisão. Trump, perceptivelmente associado a vários episódios mais ou menos sórdidos – nomeadamente tendo incitado à invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021 – vai ser acusado de ter pago a uma jovem (mas não muito) para se manter calada relativamente a uma alegada ligação sexual entre ambos.
Donald Trump, o ex-presidente e favorito à vitória nas primárias republicanas no caminho para uma nova candidatura à Casa Branca em 2024, comparece no tribunal esta terça-feira e deve ser formalmente acusado, tirar impressões digitais e ser fotografado para os arquivos, num momento tido como decisivo antes da eleição presidencial do próximo ano.
Trump foi indiciado na semana passada, tornando-se o primeiro presidente ou ex-presidente dos Estados Unidos a enfrentar acusações criminais, num caso que envolve pagamento em dinheiro, em 2016, a Stormy Daniels, uma estrela do mundo dos filmes pornográficos. Segundo a imprensa norte-americana, Trump deverá alegar inocência – ao mesmo tempo que, previsivelmente, do lado de fora do tribunal uma tribo de apoiantes manifestar-se-á em seu favor.
“Temos de voltar a pegar no nosso país e fazer a América grande outra vez!”, escreveu Trump no seu perfil Truth Social (a rede social que o próprio criou) logo após chegar a Nova Iorque vindo da Flórida. Um pedido claro de suporte popular, o mais ruidoso possível.
Ora, a Flórida é precisamente o Estado em que está um dos maiores interessados no caso que hoje tem início: Ron DeSantis, provavelmente o outro candidato às primários republicanas – cuja possibilidade de se tornar verdadeiro candidato é inversamente proporcional à de Donald Trump. Portanto, o que importa é perceber-se até que ponto o caso que hoje tem início vai impactar nas pretensões políticas de Trump. E esse impacto provavelmente não será muito: se os seus apoiantes lhe ‘desculparam’ todas as evidências do seu envolvimento num caso de máxima importância como foi a invasão do Capitólio, não lhe desculparão com maior facilidade os pagamentos Stormy Daniels? A não ser que, por não haver um recibo que identifique a entrega, Trump venha também a ser acusado de fuga aos impostos!
Os democratas também estarão atentos: é que o partido de Joe Biden tem a convicção – suportada pelas sondagens, de que uma eventual recandidatura do atual presidente tenderá a sair-se melhor do confronto com Trump que com DeSantis. Ou seja, os democratas estão a ‘torcer’ para que Stormy Daniels não tenha um impacto muito severo sobre as pretensões de Trump a voltar a candidatar-se.
Entretanto, o advogados de Trump opuseram à cobertura mediática da sua chegada ao tribunal – o que seria mais ou menos o mesmo que pedir aos jornais que não cobrissem a entrada de um extraterrestre numa pastelaria para provar um pastel de nata de rádio, dizendo que iria “exacerbar uma atmosfera já quase circense em torno deste caso”, diminuindo a dignidade e o decoro. Aí, estão absolutamente certos – mas a verdade é que dignidade e decoro nunca foram adjetivos que pudessem servir para caracterizar a personalidade de Donald Trump – sendo ele o único culpado disso.
Assim, o juiz Juan Merchan, encarregado do caso, decidiu, segundo os jornais norte-americanos, que cinco fotógrafos serão admitidos antes de a acusação ser feita, devendo depois retirar-se para os corredores do prédio. Entretanto, o promotor público distrital, Alvin Bragg (democrata), que liderou a investigação, dará uma conferência de imprensa à tarde. Só depois as acusações específicas devem ser divulgadas. Segundo o Yahoo News, Trump enfrentará 34 acusações criminais por falsificação de registos comerciais. O grande júri de Manhattan que indiciou Trump ouviu evidências durante meses sobre um pagamento de 130 mil dólares a Stormy Daniels nos últimos dias da campanha presidencial de 2016.
Do lado de fora do tribunal, em Manhattan, estará instado o caos ou o circo, dependendo dos pontos de vista: a polícia ergueu barricadas para parar os previsíveis manifestantes e as declarações dos responsáveis vão no sentido de parecer pretender enfrentar uma rebelião de grandeza incalculável. “A nossa mensagem é clara e simples: controlem-se. A cidade de Nova Iorque é nossa casa, não um playground”, disse Eric Adams, governador da cidade.