Maria Calvet

Estou numa relação com as Finanças, ‘but it’s complicated’

Ingénua, pensei que era chegar lá e logo se resolvia o assunto. Nada disso, são as Finanças: nada poderá, nunca, ser assim tão fácil.

O problema desta relação com as Finanças é que parece que todo o esforço para que ela resulte está de um só lado, do meu: sou eu que tenho de fazer toda a conversa, sempre; também é sempre minha a iniciativa das visitas, que são desgastantes e desagradáveis; e sou sempre eu que tenho de encontrar uma solução para qualquer problema que apareça, porque, do outro lado, nunca parece existir vontade.

A minha última aventura nesta relação tem quase um ano e constantes novos episódios, como uma novela da TVI, sem fim à vista. O início conta-se brevemente: entregámos a declaração de rendimentos tarde. Mea culpa! Não foi tarde e a más horas, foi só mesmo tarde, uns minutos depois da hora, porque não havia meio de encontrarmos uma informação que faltava e que, afinal, estava numa carta do banco que ninguém tinha visto. Enfim, só que, depois, surpresa: “Já não pode entregar a declaração conjunta, só em separado”. E lá ficámos, eu e o Pedro, fiscalmente solteiros, ainda que temporariamente. O problema é que, no nosso caso, isso implicava dar mais dinheiro ao Estado do que o que quereríamos, o que não dava muito jeito.

Rapidamente descobrimos que não éramos caso único, longe disso, nem os únicos a considerar esta sanção insensata. O caso foi ao Provedor de Justiça, desembocou em cartas ao governo, exposições, declarações e manifestações e, finalmente, lá foi anunciado o regime especial do governo para resolver o problema. “Ora aí está uma boa notícia!”, pensei. E pus-me a caminho da repartição, desta vez com a secreta esperança de que, por uma vez, toda aquela espera madrugadora costumeira iria ser compensada. Mas não, este não é assunto de repartição; nada de relações físicas. Este caso é para ser tratado à distância, pelo telefone, pela internet. “A sério? Mas estou aqui, não podemos resolver agora?”. Não, não podemos. Para as Finanças, ‘what happens online, stays online’.

Ingénua, pensei que era chegar lá e logo se resolvia o assunto. Nada disso, são as Finanças – nada poderá, nunca, ser assim tão fácil. Ainda nos habituávamos e perdíamos aquele temor que temos pela administração fiscal. E pronto, telefone em punho: “Está lá, Finanças?!”. E percebi que agora é que começava, verdadeiramente, a trama. Primeiro contacto: “Sabe que isto é tudo muito recente e nós ainda não sabemos bem como vai ser. Ligue daqui a uns dias”. Uns dias depois, segunda tentativa: “Olhe, eu estive a ler o decreto-lei e até fui perguntar aos meus colegas e o que lá está é o contrário do que dissemos aos contribuintes. Nem sei muito bem o que lhe posso responder. É melhor ligar daqui a uns dias. Talvez nessa altura a gente já saiba”.

Outros dias depois, terceiro round: “Sabe que há várias situações! Qual é a sua? Entregaram primeiro em conjunto, deu erro e entregaram separados? Ou entregaram juntos, deu erro, mas entregaram assim mesmo, com erro? Nunca entregaram em conjunto e só separados?”. E lá explico: “Tentámos entregar em conjunto, mas deu erro e então entregámos separados”. “Ahhhh! Então, têm de entregar uma nova declaração em conjunto”. “Já tentei submeter uma nova declaração em conjunto, mas dá erro!”. “Ahhhh! Então, não pode ser uma nova declaração, tem de corrigir a que tentou entregar no início de tudo e que lhe deu erro”.

Estou, nesta altura, a antecipar a quarta etapa. Ainda não liguei a dizer que a correção da primeira declaração também deu erro, que preciso de outra sugestão para o próximo episódio da novela, que já passei para a lista dos telefonemas de rotina: “Sim, Finanças? Bom dia!”.

 

Nota biográfica: Maria Calvet (n. 1976, Lisboa) é filha de mãe francesa e pai português, fruto de uma relação nascida de uma pós-graduação na Sorbonne. É supermulher por convicção e contadora de histórias por terapia. Por se rever num pensamento de mestre Da Vinci, fez dele mote de vida: “Tal como o ferro enferruja com o desuso e a água estagnada apodrece ou gela quando esfria”, também o nosso “intelecto perde” a não ser que lhe demos uso.

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