No desfile de Carnaval da Sapucaí de 1998, a super modelo brasileira Luma de Oliveira, famosa por posar para a Playboy e ser rainha de bateria de várias escolas de samba, chocou as feministas ao desfilar pela Unidos do Viradouro com uma gargantilha – que mais lembrava uma coleira – com o nome do então marido, o empresário Eike Batista. Na altura, Batista era famoso no mercado financeiro, mas o grande público “não estava nem aí” para o tal de Eike.
Mal sabia a maioria dos brasileiros que, em 11 anos, aquele seria o homem mais rico do Brasil. Em 2009, Eike assumia o primeiro lugar na lista dos brasileiros milionários da revista Forbes, com uma fortuna avaliada em 7,5 mil milhões de reais.
Impulsionado pelas notícias animadores da quantidade de Petróleo nas camadas pré-sal, Eike investiu praticamente todo o seu tempo e dedicação num grupo empresarial, que revolucionaria o setor de extração, produção e distribuição de combustíveis fósseis como carvão, óleo e gás natural. O grupo, composto por seis empresas, teria alcance suficiente para explorar petróleo nas bacias oceânicas da costa brasileira, realizar a mineração do carvão, realizar toda a logística necessária para a distribuição e comercialização dos produtos – inclusivé aplicando tecnologia naval – e, por fim, transformar tudo isto em energia e comercializá-la. Resumidamente: surgia um império.
As seis empresas do grupo EBX (OGX, MPX, MMX, CCX, LLX e OSX) realizaram, de 2004 a 2010, as suas respetivas OPAs, passando a ter as suas ações comercializadas na Bolsa de Valores de São Paulo. Eike estava a surfar na crista da onda. Foi considerado pela revista Forbes como o homem mais rico do Brasil até 2012, altura em que o seu império começou a ruir.
No início de 2013, as notícias de que os poços da petrolífera OGX estavam secos, caíram que nem uma bomba no mercado financeiro. As ações da empresa começaram a despencar, chegando a desvalorizar mais de 92% em menos de 1 ano. Poucos meses após a notícia bombástica, a empresa já tinha entrado em banca-rota, após aplicar um calote aos bancos de 45 milhões de dólares.
Como o grupo de empresas tinha quase todas as atividades entrelaçadas, dá para imaginar o efeito dominó. Nos meses seguintes, todas as empresas do grupo foram, uma a uma, perdendo o valor de mercado. As ações começaram a ser vendidas ao desbarato.
Mas, como se diz aqui, “desgraça pouca é bobagem”. Durante 2014, a catástrofe económica começou a migrar para a esfera jurídica. Constatou-se que pouco antes das notícias dos poços secos virem a público, Eike tinha vendido boa parte das suas ações da OGX. Aos olhos dos órgãos reguladores, Eike obteve informação privilegiada e usou-a para modificar a sua posição de mercado. Ou seja, quando as ações despencaram, ele já havia realizado lucro em cima da parcela negociada. “Ai Eike, que é o fim!”
Acusado de manipulação de mercado, uso de informação privilegiada, falsidade ideológica, formação de quadrilha e indução do investidor ao erro, chegamos ao mais recente capítulo da história de Eike. Na sexta-feira passada, a justiça bloqueou 3 mil milhões de reais das contas de Batista. Uma operação da Polícia Federal entrou em sua casa, levou seis carros de luxo, dinheiro vivo, um piano de cauda e até o seu telemóvel. O advogado de defesa disse que “não sobrou dinheiro para comprar banana para o seu filho de 3 anos”. Esta semana, a Polícia Federal foi até Angra dos Reis apreender ainda o iate do empresário.
A novela ainda terá próximos capítulos, mas como atualmente a sua dívida atinge cifras multimilionárias, talvez Eike volte para a Forbes, agora liderando outra categoria, sendo coroado o homem mais pobre do Brasil.
Juliana Pereira Martins
Jornalista
Correspondente no Brasil