Já é possível afirmar que 2014 foi o ano mais seco de que há registo, na região Sudeste do Brasil.
No estado de São Paulo, o desabastecimento de represas como as do Sistema Cantareira – o maior reservatório de captação e tratamento de água da região e que enfrenta a pior seca dos últimos 84 anos – já resultaram na falta de água em várias localidades. Teme-se, agora, que nos próximos meses a escassez deste precioso recurso natural termine num gravíssimo racionamento, nunca antes visto.
Nenhuma previsão é otimista. Um relatório do comité que controla os níveis dos reservatórios, divulgado pelo jornal O Estado de S. Paulo, revela que o Sistema Cantareira tem hipóteses reduzidas de acumular, entre dezembro e abril de 2015, água suficiente para voltar ao abastecimento hídrico regular.
Se alguém ainda tinha esperança de que estivessemos apenas a viver um problema pontual, deve ter ficado arrasado com o resultado de uma pesquisa do cientista Antônio Nobre, do Centro de Ciência do Sistema Terrestre, que conclui que a seca no país está ligada à desflorestação da Amazónia. Ainda de acordo com o investigador, em 40 anos, a Amazónia perdeu uma área equivalente a duas Alemanhas. É como se 2 mil árvores fossem derrubadas por minuto, sem parar, durante quatro décadas.
A falta desta vegetação interrompeu o fluxo de humidade do solo para a atmosfera, que resulta em ventos que, por sua vez, aumentam as hipóteses de chuva. Os “rios voadores” – nome dado a essas grandes nuvens de humidade – deixaram, assim, de seguir viagem até às regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste, esta última onde fica São Paulo.
Se tudo isto não bastasse, ainda de acordo com o mesmo estudo, parar completamente a desflorestação da Amazónia, já nem seria suficiente para reverter a situação. Seria preciso começar um enorme processo de recuperação do que já foi destruído. E quanto tempo isso demoraria?
Talvez esteja na natureza do ser-humano ignorar o óbvio, quando o óbvio nos assusta. Ainda me lembro de quem garantia que o buraco na camada de ozono era lenda. Hoje, todos sabemos que é bem real. Felizmente, de acordo com uma avaliação científica da ONU, o buraco na camada de ozono está a fechar e pode cicatrizar mais rápido do que o esperado. Isto mostra que a Natureza dá ao Homem abertura para reverter a sua “pisada negativa” no planeta.
Essa conclusão leva-me de volta à Amazónia. E aquela história de que era o pulmão do Mundo? Aparentemente o Mundo é um fumador compulsivo, que não liga nada aos constantes avisos do médico.
Lembro-me de na Universidade ouvir dizer “a água é o próximo petróleo” e não conseguir dimensionar um tempo e um lugar nos quais a água – que aprendemos, desde cedo, a tomar por certa – poderia tornar-se no principal motivo de guerras.
Hoje, infelizmente, já me é bem mais fácil conceber um Mundo onde a falta de água pode (e irá) gerar graves problemas e exigir soluções globais.
A crise hídrica no Brasil deveria, por isso, estar a ser encarada com seriedade e real preocupação pelas principais nações e órgãos internacionais. Afinal, se o país detentor de 60% da maior floresta do Mundo está a passar por uma crise hídrica desta dimensão, o que esperar para o resto do globo?
Vemos dezenas de filmes de ficção científica, que retratam futuros nos quais a humanidade está destinada a um fim tenebroso, onde reina a falta de água e a poluição atomosférica é insustentável, mas assobiamos para o lado como se não fosse nada connosco.
E uma pergunta não me sai da cabeça: e se o Mundo seca?
Juliana Pereira Martins
Jornalista