Redação

Dívida perdoada

Infelizmente, não falamos de Portugal ou da Grécia, porque aí os padrões têm sido mantidos: pagar até ao final da dívida.

Apesar de como dizia no início desta semana Thomas Piketty, na Fundação Calouste Gulbenkian, a França e a Alemanha não terem pago a sua dívida até ao final. É verdade que foi no pós guerra. Mas a especulação financeira sem regras pode tornar-se tão desestruturante como uma guerra, porque perdura no tempo, destrói potencialmente o tecido produtivo e causa danos irreversíveis na sociedade.

Mas este artigo não é sobre a Europa, é sobre o Chade. Ainda há um par de anos sob ameaça do extremismo islâmico, é hoje um estado que anuncia na primeira página do Financial Times o perdão da sua dívida externa em certa de um bilião de dólares pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial. É interessante como o Chade usa um recurso da comunicação internacional para atrair investimento e para virar as atenções externas para aspetos positivos. Num ambiente de comunicação internacional em que os países menos desenvolvidos apenas aparecem devido a catástrofes, como o recente caso do Nepal, o Chade aposta num artigo promocional (identificado enquanto tal), no jornal que ainda é uma referência da economia e finança internacionais.

Usa os argumentos que são caros aos investidores: democracia, crescimento económico assinalável e promessa de investimento público em infraestruturas, educação e saúde. Vai mais longe, assegura que os lucros obtidos com o petróleo são orientados para este tipo de despesa pública, portanto mobilizados para um contexto que assegure um crescimento e desenvolvimento sustentáveis. Remata com o seu envolvimento no combate ao terrorismo que alinha o país com os interesses dos potenciais investidores.

É importante verificar-se como tanto em termos formais (meio de comunicação social e modelo de artigo escolhidos) como em termos de conteúdo (discurso orientado para a expetativa do recetor) se trata de uma comunicação inteligente e aplicável a qualquer país. Num mundo globalizado, a seleção do público para a mensagem e a adaptação dos conteúdos é uma necessidade urgente. Mais do que visitas de circunstância, é preciso mobilizar e credibilizar junto da opinião pública.

Agências de desenvolvimento, instituições de investimento têm de ter isso em conta. Hoje a diplomacia económica é mais do que visitas bilaterais. É chegar do topo à baseou vice-versa. Com o acesso à informação, a opinião pública tornou-se um elemento decisivo em quadros de risco, seja este financeiro ou de guerra. Portanto, não chega trabalhar vontades de líderes económicos e políticos. É determinante mobilizar a opinião pública para que haja suporte a decisões que impliquem o envolvimento em cenários incertos. O Chade sabe disso e soube usar esse recurso.

Cátia Miriam Costa
Investigadora do Centro de Estudos Internacionais, ISCTE – IUL

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