Alexandra Paio, Docente do ISCTE-IUL

Descarbonizar até 2050

Reduzir as emissões de carbono na indústria da construção não é uma questão de estilo arquitetónico. É uma mudança de paradigma que a sociedade espera que os arquitetos façam.

Todos os dias ouvimos notícias sobre a premência de descarbonizar até 2050. Os discursos políticos e os eventos globais alertam para o desafio urgente de uma economia com emissões nulas de gases com efeito de estufa. Uma oportunidade para construir um futuro melhor para todos, numa visão otimista, ou apenas para deixar um planeta onde as novas gerações possam continuar a viver, numa visão pessimista.

Assim, todos somos chamados a desempenhar um papel, cidadãos e setores económicos, desde a agricultura e indústria à mobilidade, passando pela construção. No caso de Portugal e no âmbito do roteiro para a neutralidade carbónica, o país compromete-se com uma estratégia de longo prazo com o mote “descarbonização não é um palavrão, é uma forma de ação”.

No fundo, segue-se o espírito do Acordo de Paris, de 2015, no qual 195 países declaram que passar à ação é decisivo para limitar o impacto humano no planeta. A nível nacional, são vários os exemplos em curso, mas verifica-se que no campo da arquitetura ainda existem muitos aspetos a mudar na maneira como projetamos e construímos. Contudo, há vários arquitetos na Europa que estão a contribuir para esta mudança.

Por ocasião de uma Escola de Verão, em Valência, o arquiteto Bruno Sauer, membro do Conselho de Administração do World Green Building Council (WorldGBC), uma das organizações internacional mais influentes no setor da construção sustentável, colocou três pertinentes questões: 1. Como se define o valor de um edifício concebida de forma sustentável? 2. Quem está a atribuir um preço a esse valor? 3. Como pode um arquiteto impor esse valor na sociedade?

As questões fazem ainda mais sentido se olharmos com atenção para os números disponíveis nos relatórios anuais. Os edifícios que os arquitetos projetam são responsáveis, anualmente,  por 33% do consumo global de energia e 39% das emissões de gases com efeito de estufa. O ambiente construído gera cerca de 50% das emissões globais anuais de CO2. As operações de construção são responsáveis por 27%, os materiais de construção e a construção são responsáveis por mais 20%. O setor da construção é, ainda, responsável pelo consumo de 40% das matérias-primas mundiais.

O CO2, como métrica universal, é essencial para medir a descarbonização dos edifícios, e os arquitetos têm que desempenhar um papel significativo através de políticas, design e seleção de materiais. Para Bruce King, no livro “The New Carbon Architect”, não se trata somente do desenho de edifícios verdes, é preciso uma verdadeira mudança de paradigma. Caminho que os arquitetos Anne Lacaton e Jean-Philippe Vassal, Prémio Pritzker 2021, estão a fazer através de uma abordagem para criar um ambiente construído mais inteligente, mais inclusivo – nunca demolir, remover ou substituir, sempre adicionar, transformar e reutilizar.

Para que o plano mundial do GBC e os objetivos do roteiro para a neutralidade carbónica nacional sejam bem-sucedidos, os arquitetos têm que fazer parte da visão sistémica necessária para reduzir as emissões de carbono na indústria da construção como um todo. Não é uma questão de estilo arquitetónico. É uma questão de mudança de paradigma conceptual e construtivo. É essa mudança que a sociedade está à espera que os arquitetos façam.

Relacionado

Hays defende abordagem preventiva ao bem-estar no trabalho

Hays defende abordagem preventiva ao bem-estar no trabalho

Almerinda Romeira27 Ago
Empresa de recursos humanos Hays recomenda a necessidade de criar condições para um equilíbrio sustentável na relação entre as empresas e os seus profissionais: “As empresas que pretendem reter talento devem olhar para o bem-estar como parte da experiência profissional e não apenas como um benefício adicional".
8 programas para desfrutar da vinha e do vinho

8 programas para desfrutar da vinha e do vinho

Ana Pina19 Ago
Vindimar é o verbo. E saborear o vinho também. Setembro aproxima-se a passos largos e as cepas estão carregadas de uvas prontas a colher. Um bom pretexto para juntar família e amigos, e cruzar tradição, luxo e autenticidade. E gastronomia de excelência.