Redação

Desassossego (parte II)

De que precisa Portugal. Segue a 2ª parte de ideias.

6- Estratégia para Portugal

O novo Quadro Comunitário de Apoio poderia, poderá ainda, servir para mobilizar os portugueses para uma Estratégia de Desenvolvimento para Portugal que visasse o médio e o longo prazos. Infelizmente assim não foi. Verdadeiramente o país, enquanto tal, não foi capaz, neste desafiante momento histórico, de gerar uma estratégia que o mobilize e dê sentido à atividade de cada um de nós.

7- Investimento Estrangeiro

Portugal precisa, como de pão para a boca, de investimento estrangeiro – sempre precisou. Infelizmente ao investimento estrangeiro que instalou novas, e inovadoras, unidades fabris em Portugal (Siemens, Celbi, Renault, etc.), transferiu tecnologia e fez crescer núcleos relevantes de boas PME, sucedeu um investimento estrangeiro que quase se resume a comprar empresas portuguesas maduras, assegurando rendimentos de capital quase sem risco, dada a natureza das adquiridas.

8 – Economia Subterrânea

Cada vez que alguém não paga impostos todos nós estamos a pagar um pouco mais. A economia paralela não é um exclusivo nosso mas isso não desculpa, nem dispensa, o que cada um tem que fazer para a combater. Evidentemente que quando pessoas estimáveis vão ao Parlamento dizer que receberam comissões com origem em negócios feitos com o Estado Português e que tudo fizeram para que sobre tais rendimentos não incidissem impostos e nada (lhes) aconteceu, torna-se difícil convencer o cidadão comum a pedir recibo quando vai mandar colocar meias-solas nos sapatos que assim lhe farão mais uns meses. Parece, no entanto, que esta é uma área em que Portugal está a dar passos positivos. E não se venha desmerecer o recurso a concursos com a atribuição de automóveis quando os portugueses gastam quase mil milhões de euros por ano em apostas no euromilhões.

9 – Empreendedorismo

Portugal não é, historicamente, um país de empreendedores empresariais. Por razões fáceis de perceber. O país nunca teve, e continua a não ter, capital disponível; os seus cidadãos não tinham instrução; uma cultura de risco não se compatibilizava com a ideia atávica de um ideal de uma população “remediada”; o sucesso foi, por décadas, sinónimo de uma carreira universitária ou nos corpos centrais do Estado.

A situação parece estar a mudar. Lisboa foi considerada pela EU como a Cidade Empreendedora Europeia 2015. Muitas regiões começam a contribuir para criar estímulos ao empreendedorismo. Talvez reforçar as dotações para Private Equities e dar-lhes mandatos claros seja o caminho.

9 – Empresas

O tecido empresarial português precisa de uma atenção que vai muito para além da estafada conversa do financiamento. As empresas estão, tal como as famílias, afundadas em dívida que não conseguirão pagar. As empresas precisam, isso sim, é de transformar uma parte da sua dívida em capital e aceder a novas fontes de capital. Este devia ser o objeto de uma política pública para as empresas portuguesas. Enquanto esta questão não for resolvida nenhuma relevante o será.

11 – União Europeia

Até à “queda do muro” o esforço de construção de um bloco europeu prosseguido pelos seus líderes visou criar uma unidade política, económica e social. E, sobretudo, parecia existir uma ideia perene e clara de que o futuro de todos nós passava por uma Europa coesa, forte e cada vez mais igual. Uma Europa de cidadãos e não de súbditos, uma Europa na qual, ainda que com várias nuances, todos nos sentíssemos Europeus. Infelizmente somos hoje confrontados com um processo de (des) construção europeia lento e pouco ambicioso, num quadro político que mais parece de desintegração, numa afirmação das individualidades nacionais em detrimento das preocupações comuns aos europeus. A Europa parece querer reduzir-se hoje a uma máquina burocrática e a um cofre, aquela cada vez mais pesada e este cada vez mais vazio. Política é que não há. E quando não há política…

12 – O Mundo Português

O mundo português é a nossa realidade atual e a nossa história, a nossa população residente e os nossos emigrantes, as nossas relações internacionais e a nossa geografia. É a partir desta pluralidade de realidades, tirando de cada uma delas o melhor que cada uma nos pode proporcionar, que devemos ser capazes de construir uma estratégia nacional, de saber com clareza e sageza o que queremos ser e fazer. Mobilizar as diásporas, dar dimensão cultural e económica às nossas relações históricas, saber o que fazer com o nosso território e com o nosso mar, rentabilizando-os.

Mais importante do que o que aqui se diz é o que cada um dos pacientes leitores pode acrescentar a cada um destes tópicos e, sobretudo, os novos e mais relevantes que entenda propor para a discussão.

Pondo fim a uma certa letargia sem ambição nem esperança a que Portugal tem sido remetido.

Ou, no dizer de Fernando Pessoa, citando, de novo, o seu Livro do Desassossego: “Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso “.

 

Luís Parreirão

Gestor

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