Redação

Desassossego (parte I)

Tomo de empréstimo o título de um dos livros de Fernando Pessoa para “desassossegar” os leitores, ou, pelo menos, tentá-lo.
À felicidade egoísta de viver tempos únicos contrapõe-se a necessidade coletiva de construir novos modelos que respondam à complexidade da vida, garantam os avanços civilizacionais que alcançámos, e assegurem a participação igualitária dos cidadãos nos processos de decisão das comunidades organizadas.
É por isso que à exigência da ação quotidiana se justapõe (ou antepõe?) uma necessidade de construção teórica que lhe dê sentido e horizonte temporal. Ou, como dizia Pessoa no Livro do Desassossego: “A maioria pensa com a sensibilidade, eu sinto com o pensamento. Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar”.
Urge, pois, pensar. Para agir sobre uma multiplicidade de temas que condicionam o nosso quotidiano, as nossas opções e o nosso percurso.
Proponho-vos 12 tópicos, de entre uma miríade possível, com o desafio cidadão de, como diz Pessoa, “sentirmos com o pensamento”.
1- Emprego/desemprego
Até aos nossos dias ter emprego significou que cada cidadão assegurava, através do seu trabalho, a subsistência com dignidade. Hoje, ter emprego já não significa necessariamente subsistir com dignidade. Em muitos casos é ficar abaixo do limiar da pobreza e, em muitos outros, é também não ter qualquer perspetiva de futuro. Numa população de 10 milhões de habitantes ter 600 mil desempregados e cerca de 400 mil cidadãos sem qualquer rendimento formal conhecido é ter uma bomba-relógio social absolutamente descontrolada. Ou, o que seria ainda mais preocupante, ter um “exército à espera de chefe“ que representa 10% da população.
2- Coesão Nacional
Muito se tem escrito sobre o país desigual e a várias velocidades que estamos a construir. Para ilustrar o que está a acontecer basta referir que 51% dos portugueses usaram a internet todos os dias, ou quase todos os dias, em 2014; no mesmo período 30% dos portugueses não a utilizaram de todo. Quando se definem políticas públicas talvez se deva ter presente esta realidade e o que ela representa na materialização do princípio da igualdade.
3- População
Portugal tem, a prazo, um sério desafio de sobrevivência. Para cerca de 100 mil mortes em 2014, o país teve cerca de 80 mil nascimentos – número chocante de uma tendência antiga e conhecida, ainda que nunca geradora de qualquer atuação relevante.
A esta realidade acresce a da violenta emigração. Os portugueses emigrados representam hoje mais de um quinto da população residente. Alguns números ajudam-nos a perceber melhor o fenómeno. Entre 2007 e 2012 saíram do país, em média anual, 82,5 mil portugueses e em 2013 terão emigrado 128 mil portugueses, ou seja, cerca de 600 mil portugueses em sete anos! Tanto como a população de Lisboa, ou mais do que a população dos Açores e da Madeira.
4- Serviço Público
A democracia portuguesa conseguiu, com assinalável êxito, aproximar os serviços públicos dos cidadãos, melhorar a qualidade dos serviços prestados e criar uma nova e positiva atitude nos funcionários, aproximando-os dos cidadãos e criando nestes a necessária confiança na administração pública. Requisitos essenciais para que realizem a razão da sua existência – a concretização das políticas públicas sufragadas por todos nós e legitimamente aprovadas por órgãos soberanos. Infelizmente muito deste adquirido se está hoje a perder com uma degradação, por vezes chocante, dos serviços públicos. Ao mesmo tempo que hoje nenhum funcionário saberá verdadeiramente qual o seu salário ou estatuto, quais as expectativas que poderá ter quanto ao seu futuro e quais os objetivos que lhe estão fixados.
5- Confiança
Não há vida em sociedade sem confiança e, há que reconhecê-lo, vivemos hoje mergulhados num clima de preocupante desconfiança institucional. Sucessivas detenções e condenações de políticos de primeiro plano, grupos empresariais que desaparecem mergulhados em suspeitas criminais confirmadas pelos próprios, bancos que entram em insolvência arrastando os depositantes que ficam sem as suas poupanças, processos judiciais que se eternizam sem decisões finais. Este é um clima social a que é necessário dar respostas que vão para além do recurso à estafada expressão “as instituições funcionam”. É necessário que funcionem mesmo, depressa e para todos.
(continua)

Luís Parreirão
Gestor

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