André Paula Santos, Director de Assuntos Europeus no European Biodiesel Board

Depois das eleições europeias, quem vai liderar a Europa nos próximos 5 anos?

O próximo Parlamento Europeu será sem dúvida mais fragmentado, e provavelmente as eventuais maiorias dependerão de acordos ad hoc em matérias como a luta contra as alterações climáticas, matéria fiscal, migração, segurança e solidariedade social.

No segundo maior exercício democrático do mundo (depois da India), 400 milhões de europeus votavam em 751 deputados divididos pelos (ainda) 28 países da União Europeia (UE). Em Portugal, infelizmente, a abstenção revelou-se a maior de sempre (68,89%), mas no resto da Europa a tendência foi positiva, com o nível de abstenção mais baixo dos últimos 20 anos (49.06%, quando em 2014 havia sido de 57.39%). Esta tendência é positiva, e demonstra que a UE está bem viva e muito longe do destino que os eurocéticos lhe vaticinavam há uns anos atrás.

Aliás, apesar dos três grupos eurocéticos ou de extrema direita “anti-sistema” terem tido alguns ganhos relevantes – em particular o partido de Salvini em Itália, a já esperada vitória de Le Pen em França (com menos votos do que em 2014) e a vitória do partido do Brexit de Nigel Farage – estes não foram tão significativos como esperado: em conjunto estes partidos passaram apenas de 21% para 23%. Pelo contrário, os ganhos de partidos pró-europeístas como os Verdes, que passaram de 52 para 70 lugares, e a Aliança dos Democratas e Liberais pela Europa (ALDE), que inclui agora o partido de Macron, que passou de 69 para 109 lugares, demonstram que o apoio a partidos pró-europeus continua forte pela Europa. Contudo, o próximo Parlamento Europeu será sem dúvida mais fragmentado, e provavelmente as eventuais maiorias dependerão de acordos ad hoc em matérias como a luta contra as alterações climáticas, matéria fiscal, migração, segurança e solidariedade social.

Assim, e depois de todos os votos apurados, importa agora procurar perceber quem vai liderar a UE nos próximos 5 anos. Os dois partidos da “grand coalition” que até aqui havia governado a UE – o Partido Popular Europeu (PPE), que inclui o PSD e o CDS-PP, e a Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas (S&D), da qual faz parte o PS – foram os grandes derrotados da noite ao passar de 410 deputados (54%) para 326 (43%). Por isso, e para assegurar os 376 deputados necessários para apoiarem a nova Comissão Europeia, aos 180 deputados do PPE e aos 146 dos S&D é de esperar que se juntem os 109 deputados do ALDE, e talvez também alguns dos Verdes.

Confirmando a intenção do ALDE de se tornar no “kingmaker”, logo na manhã seguinte às eleições o n.º 2 da lista de Macron declarou que o próximo presidente da Comissão Europeia não poderia ser o candidato do PPE – Manfred Weber – mas sim alguém muito mais perto do novo “centro de gravidade” do Parlamento (i.e., mais ao centro do que à direita). Reação semelhante teve o S&D, que de imediato reagiu dizendo que o seu candidato Frans Timmermans seria o único a poder liderar uma coligação abrangente no parlamento. Neste contexto, os nomes do francês Michel Barnier (negociador europeu do Brexit) e da dinamarquesa Margrethe Vestager (atual comissária europeia para a concorrência) são os mais citados como hipóteses de compromisso para liderarem a Comissão. Dado que o Brexit ainda não está resolvido, é de duvidar que Barnier seja o escolhido, enquanto Vestager seria um nome de compromisso que acabaria por salvar o processo do “spitzenkandidat” dado que ela fez parte do grupo de candidatos apresentado pelo ALDE.

Os últimos desenvolvimentos nesta “guerra dos tronos” europeus tiveram lugar imediatamente na terça-feira depois das eleições, com os líderes parlamentares a reunirem durante o dia em antecipação do jantar informal dos chefes de estado e de governo da EU (Conselho Europeu), onde consideraram os resultados eleitorais e já discutiram potenciais nomes para liderar a Comissão Europeia. Espera-se uma proposta formal nesta matéria durante a cimeira de 20 e 21 de Junho. Nestas considerações não é apenas a liderança da Comissão Europeia que está em discussão, mas também os cargos de Presidente do Conselho Europeu, Alto Representante da EU para a Política Externa, Presidente do Parlamento Europeu, os outros cargos de comissário (em relação aos quais vários países já começaram nos bastidores a solicitar determinados portfolios – Portugal já disse abertamente querer o dossier dos fundos estruturais) e até o futuro Presidente do Banco Central Europeu.

Caso o Conselho Europeu opte por respeitar o mecanismo do spitzenkandidat, e proponha um nome de entre os que se apresentaram a votos como candidatos, é mais provável que os grupos parlamentares europeus, após as tradicionais negociações de bastidores e as necessárias ponderações de equilíbrios entre o norte e o sul, o este e o oeste, grandes e pequenos países e até considerações de género, acabem por chegar a acordo e apoiem o nome escolhido pelo Conselho. Se, pelo contrário, o Conselho apresentar outro nome, é esperada resistência por parte do Parlamento, e poderemos assistir a um processo negocial mais demorado e que atrase a tomada de posse da nova Comissão e dos outros cargos já mencionados. De qualquer modo, as eleições europeias foram apenas o princípio deste processo de transição da liderança europeia, e muitas negociações e trocas de apoios se farão até que todas as peças desde xadrez estejam nos seus lugares e as instituições europeias prontas para um novo mandato de 5 anos.

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