Francisca Guedes de Oliveira, Docente da Católica Porto Business School

De novo a desigualdade

A desigualdade de género, além de ser injusta, é perniciosa na sua ligação com a desigualdade no acesso a rendimento, que inequivocamente potencia.

O termo desigualdade, quando aplicado a indivíduos, significa mais do que simples diferença. Tem uma conotação negativa e significa que se trata de forma diferente, e muitas vezes desproporcional e inferior, o que devia merecer um mesmo tratamento. Acontece devido a raça, religião ou género, mas também a estatuto social.

Sei que sou, em muitos sentidos, privilegiada. Em termos da família onde nasci, da educação que tive, das oportunidades de emprego que vou tendo. Mas sei também que, por ser mulher, fui, ao longo da minha vida, alvo de desigualdade. Não tenho qualquer dúvida que tive de fazer mais para ter o que tenho e chegar onde cheguei do que a maioria dos homens em igualdade de circunstâncias.

A desigualdade de género, além de ser injusta, condicionando negativamente o papel da mulher na sociedade, é perniciosa na sua ligação com a desigualdade no acesso a rendimento, que inequivocamente potencia. Os dois efeitos juntos têm um impacto negativo no crescimento do PIB e nos indicadores de bem-estar. Além disso, ferem de morte a taxa de natalidade.

Se são boas notícias o facto de Portugal ter o terceiro governo da União Europeia com mais mulheres e ocupar o nono lugar no ranking da representação feminina na política, o caminho ainda está muito estreito.

Em Portugal, o “gender pay gap” é de cerca de 20%, o que significa que, em média e para a mesma função – controlados os fatores diferenciadores, nomeadamente idade, experiência, qualificações, etc. – um homem ganha mais 20% do que uma mulher.

Se no trabalho menos qualificado ou mais indiferenciado, os números são muito preocupantes, é nos lugares de topo que assumem proporções catastróficas. Nas 15 empresas do PSI 20, apenas uma tem uma CEO, a SONAE.

No top 10 dos CEO mais citados em artigos na imprensa, apenas dois são mulheres: a CEO da TAP e, mais uma vez, a da SONAE. Estamos a falar dos cargos realmente bem remunerados.

Relativamente ainda aos CEO do PSI 20, em 2021, eles ganharam cerca de 40 milhões de euros, praticamente o dobro do que ganharam no ano anterior, e que corresponde a 32 vezes o que ganharam os trabalhadores das suas empresas.

É verdade que há 30 anos o cenário entre homens e mulheres era muito pior, e é verdade que, com o decorrer do tempo, algumas políticas proativas têm trazido mais igualdade. Mas as alterações culturais e sociológicas, nestas questões, são demasiado lentas.

Se me choca que, na minha geração, elas ainda subsistam mais de 100 anos depois de uma mulher ter tido a coragem de exigir que por ser “chefe de família” pudesse votar – o que obrigou a que a lei fosse alterada para “homem” em vez de “chefe de família” –, mais me choca ainda que persistam na geração dos meus filhos.

Ao ritmo a que as alterações avançam, não vejo qualquer hipótese de que não seja assim. E com países como os EUA a levarem-nos para a pré-história nos direitos das mulheres, temo que o que era um percurso de progressão possa sofrer reveses rápidos. E, não tenhamos dúvidas, este contexto só muda efetivamente se os homens – sim, o género masculino – fizerem disto, também, a sua causa.

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