DBRS: “Cerca de metade da exposição soberana dos bancos é ao seu próprio título soberano”

"Observamos também que, em média, cerca de 60% da exposição soberana é contabilizada ao custo amortizado, que se espera que se mantenha até à maturidade. É tipicamente o caso dos activos de longo prazo mais sensíveis à taxa de juro", refere a DBRS.

DBRS: “Cerca de metade da exposição soberana dos bancos é ao seu próprio título soberano”
fusão

A DBRS desmistifica qualquer impacto da subida das yields francesa e inglesa, no setor bancário europeu, isto depois de os juros soberanos de longo prazo terem voltado a subir a níveis não vistos desde a crise de 2011, refletindo receios com a sustentabilidade das contas públicas na Europa.

A Morningstar DBRS, questionada pelo Jornal Económico, disse que “com base no painel da EBA, que inclui dados de 162 bancos na UE/EEE no final de 2024, podemos destacar dois pontos principais. Um é que em média, cerca de metade da exposição soberana dos bancos é ao seu próprio título soberano e cerca de 30% é a títulos soberanos de outros países da UE/EEE”.

“Observamos também que, em média, cerca de 60% da exposição soberana é contabilizada ao custo amortizado, que se espera que se mantenha até à maturidade. É tipicamente o caso dos activos de longo prazo mais sensíveis à taxa de juro”, refere a DBRS.

A agência de rating explica que apenas “cerca de 15% da exposição soberana é classificada como ativos detidos para negociação e são marcados a mercado. No entanto, os activos desta categoria tendem a ser de curto prazo”.

“Por fim, cerca de 20% da exposição soberana é contabilizada ao justo valor através de Outros Resultados Abrangentes. Estes ativos podem ser de longo prazo. Nesta categoria, as variações no justo valor têm um impacto direto no capital regulamentar”, refere a DBRS.

Tal como já tinha defendido a agência de rating Fitch,  que defendeu que “a exposição dos bancos portugueses à dívida soberana francesa continua limitada, embora a exposição à dívida soberana em euros (exceto Portugal) esteja de facto a aumentar”, também a DBRS espera que a exposição dos bancos europeus a títulos soberanos do Reino Unido e de França “seja relativamente baixa, sendo a maior parte da exposição contabilizada ao custo amortizado, sem impacto no capital ou no resultado”.

“Analisando os dados dos bancos portugueses nos seus relatórios anuais, esperamos também que estes tenham uma exposição insignificante a títulos soberanos de França e do Reino Unido como parte dos seus títulos soberanos com classificação AA, com a maioria das participações contabilizadas ao custo amortizado e, portanto, mantidas até à maturidade”, conclui a agência de notação financeira canadiana.

Há risco soberano no Reino Unido e França?

A DBRS fez ainda uma análise ao risco soberano do Reino Unido e França.

No Reino Unido (que tem rating AA/Estável), a classificação de crédito do Reino Unido é sustentada pela sua economia “ampla, diversificada e rica, indicadores de governação muito fortes, flexibilidade financeira e política monetária robusta e fiável”.

No entanto, o Reino Unido enfrenta desafios de crédito decorrentes da fragilidade das finanças do sector público, incluindo um défice orçamental persistente e uma dívida pública elevada, reconhece a DBRS.

“O ritmo da consolidação orçamental do Reino Unido está a abrandar, e a estreita margem orçamental aumenta o risco de novas derrapagens na ausência de ajustamentos da política monetária, especialmente devido às crescentes pressões sobre as despesas, como a defesa”, destaca a DBRS.

No entanto, e apesar das pressões fiscais, “o perfil de crédito do Reino Unido continua forte, apoiado pelos seus mercados de capitais profundos e líquidos e pelo estatuto de moeda de reserva da libra esterlina, que proporciona um grau de flexibilidade financeira muito significativo”.

“Neste contexto, embora seja possível um aumento dos rendimentos a longo prazo, é pouco provável que este tenha um impacto significativo na nossa classificação. Continuamos a monitorizar e a avaliar os desafios de crédito do Reino Unido e refletiremos quaisquer desenvolvimentos relevantes na nossa próxima revisão”, diz a DBRS.

Em França (que tem um rating AA (high)/Negative), a mudança de tendência de Estável para Negativa em 21 de março de 2025 “refletiu a visão da Morningstar DBRS de maiores riscos de execução em relação à capacidade da França de reduzir o seu elevado défice fiscal e o seu elevado rácio de dívida pública nos próximos anos, principalmente relacionados com o aumento dos custos dos juros da dívida”.

“As medidas estruturais de consolidação orçamental necessárias nos próximos anos para atingir as metas orçamentais de França são significativas. A maior fragmentação política na Assembleia Nacional desde as eleições legislativas antecipadas de Julho de 2024 poderá dificultar acções governamentais orçamentais decisivas nos próximos anos”, salienta a agência de notação financeira.

O contexto desta análise é o facto de o primeiro-ministro francês, François Bayrou, ter anunciado que, no próximo dia  8 de setembro, submeterá o seu governo a um voto de confiança na Assembleia Nacional, na sequência da sua declaração de política geral sobre as orientações orçamentais. O impasse centra-se no orçamento de 2026, que prevê cortes de 44 mil milhões de euros para reduzir o défice de 5,8% do PIB para 4,6%.

Se a moção for rejeitada, o que acontece pela primeira vez na Quinta República, o governo será obrigado a demitir-se. Dado o atual impasse parlamentar, uma dissolução da Assembleia Nacional pareceria então inevitável, aumentando o risco de mergulhar o país no mesmo impasse político e atrasando ainda mais a elaboração do orçamento para 2026.
Isto pode significar o descarrilar da trajetória de redução da dívida da França.

A DBRS diz que as notações de crédito da França continuam a ser sustentadas “pela economia rica e diversificada do país, por instituições públicas sólidas e por uma forte gestão da dívida”.

“A França é um membro central da zona euro e os riscos para a estabilidade financeira estão contidos”, alerta a DBRS.

“Tal como no Reino Unido, não prevemos qualquer impacto material na classificação devido à volatilidade das taxas de juro de longo prazo”, conclui a DBRS.

Os analistas do BPI salientam que “desde meados de 2024 a dívida soberana francesa perdeu o seu estatuto de proximidade do Bund, tido como referência na UEM, sofrendo o prémio de risco acentuada penalização, que se intensificou recentemente”.

“Nesta nota procuramos dar algumas pistas sobre os principais fatores que condicionarão a evolução do spread das OAT [French government bonds] no futuro e ponderar até que ponto esta crise se poderá tornar sistémica”, referem os analistas do BPI.

“Na nossa avaliação, os desequilíbrios macro não nos parecem excessivos – o país sofre de perda de produtividade nos anos mais recentes, que se reflete em fraco crescimento económico, mas não padece de desequilíbrios estruturais fortes – por exemplo, a sua dívida externa líquida é comparativamente baixa, cerca de 38% do PIB; a taxa de poupança das famílias é bastante elevada, cerca de 17% do rendimento disponível. Acresce que, no contexto da UEM, se verifica que o BCE dispõe atualmente de instrumentos e espaço de manobra importante para contrariar movimentos mais intensos de turbulência financeira e que possam eventualmente alastrar”, defende o BPI.

Relacionado

Bancos aumentam exposição a Data Centers com boom da IA, mas gerem risco com titularização, diz DBRS

Bancos aumentam exposição a Data Centers com boom da IA, mas gerem risco com titularização, diz DBRS

Maria Teixeira Alves27 Ago
O surgimento da inteligência artificial (IA) desencadeou um aumento sem precedentes na procura de infraestruturas digitais, particularmente de data centers. Outrora vistos como um segmento de nicho dentro dos mercados imobiliário e de infraestruturas, os data centers evoluíram rapidamente para uma classe de ativos distinta. A DBRS analisa o consequente crescimento da exposição dos bancos ao sector e as implicações de crédito associadas.
DBRS: Seis maiores bancos portugueses lucram 2,5 mil milhões no 1.º semestre suportados pelo crescimento do crédito

DBRS: Seis maiores bancos portugueses lucram 2,5 mil milhões no 1.º semestre suportados pelo crescimento do crédito

Redação13 Ago
Bancos portugueses registam lucros de 2,5 mil milhões no primeiro semestre, mas rentabilidade recua, destaca a DBRS. A rentabilidade dos capitais próprios (ROE) agregado dos seis maiores grupos bancários analisados pela DBRS — Caixa Geral de Depósitos, BCP, Novobanco, Banco Montepio, BPI e Santander Totta — caiu para 14,8% no primeiro semestre, contra 16,7% no mesmo período de 2025.