Energia, carbono e concorrência racham indústria cerâmica

O setor está a sufocar. Numa empresa de média dimensão, o gás natural pode custar até dois milhões de euros e a taxa de carbono 500 mil. A concorrência da Índia nos pavimentos e da China na louça é outro problema. Se nada for feito, ou as empresas deslocalizam a produção ou fecham.

Energia, carbono e concorrência racham indústria cerâmica
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O aumento do preço do gás natural, a escalada das licenças da taxa de carbono, o elevado custo do biometano – quatro vezes superior ao gás natural – e a concorrência desleal da Índia nos pavimentos e revestimentos e da China na louça – apesar de a Europa neste segmento ter uma proteção de 70% – ameaçam estilhaçar o setor da cerâmica. Seja à mesa, seja no chão. “Se nada for feito, muitas empresas vão fechar portas”, vaticina Jorge Vieira, Presidente da APICER — Associação Portuguesa das Indústrias de Cerâmica e Cristalaria. De salientar que Portugal é o primeiro exportador europeu de louça utilitária e decorativa. Já na cerâmica plana ocupa o quarto lugar.
“Desde o início da guerra, o preço do gás natural — essencial para alimentar os fornos industriais — duplicou, passando de cerca de 30 para 60 euros por megawatt/hora. Para uma empresa de dimensão média, este aumento traduz-se num acréscimo anual entre 1,5 e 2 milhões de euros. Trata-se de um impacto direto numa estrutura de custos já pressionada, em que a energia pode representar entre 25% e 30% das vendas. Com a duplicação do preço do gás, este peso pode ultrapassar os 50%, um nível considerado incomportável a médio prazo”, explica.
O impacto não se fica pelo consumo direto. Toda a cadeia de produção é afetada. No caso do pó atomizado, uma das principais matérias-primas, cerca de 45% do custo está ligado ao gás natural. O mesmo acontece com os vidros utilizados nos revestimentos. O aumento da energia faz subir o custo final de praticamente todos os produtos.
Ao mesmo tempo, as regras ambientais europeias estão a aumentar a pressão. “A indústria cerâmica enfrenta hoje um desafio complexo: reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, ao mesmo tempo que cumpre os requisitos do Sistema de Comércio de Emissões da União Europeia (SCEEUE)”, afirma Jorge Vieira.
O problema é que os limites definidos não acompanham a realidade tecnológica do setor. “Este parâmetro de referência é crucial, dado que os fornos cerâmicos consomem grandes quantidades de energia para atingir temperaturas entre os 1.000 e os 1.400 graus”, alerta. Atualmente, mesmo utilizando gás natural — a opção mais eficiente disponível —, as emissões continuam acima do valor limite. Na prática, isto obriga as empresas a adquirir licenças adicionais no mercado de carbono, o que aumenta ainda mais os custos. “Para uma fábrica com 20 milhões de euros de faturação, esta diferença pode representar cerca de 500 mil euros por ano e pode aumentar se o preço do carbono subir.”
“Se o fator de emissão descer para 28, será o fim do setor”, alerta Jorge Vieira. A razão é simples: ainda não existem alternativas viáveis. O hidrogénio tem resultados limitados e o biometano, além de ser escasso, pode custar mais de quatro vezes o preço do gás natural. Os empresários defendem que falta um mercado funcional para os gases renováveis. Sem apoio ao consumo — e não apenas à produção — afirmam que a transição energética será difícil de concretizar.
Outro risco é o da chamada “fuga de carbono”: as empresas transferem a produção para países com menos exigências ambientais, como Marrocos, mantendo as emissões globais, mas perdendo emprego e investimento na Europa. “Isto é um risco de desindustrialização e deslocalização produtivo. Para toda Europa. Não é só Portugal”.
Os efeitos já se fazem sentir. “No segmento de pavimentos e revestimentos, mais de metade das empresas registou prejuízos no último ano”, refere Jorge Vieira. Ao mesmo tempo, a concorrência de países onde os custos de produção podem ser até três vezes mais baixos, está a aumentar. A diferença, segundo os especialistas, não está na eficiência, mas sim nas condições: mão de obra mais barata, menos exigências ambientais e ausência de custos com carbono. Ainda assim, esses produtos entram no mercado europeu sem enfrentar barreiras relevantes, o que o setor considera ser concorrência desleal. A pedido do jornal económico a APICER fez uma pesquisa durante esta semana solicitando a duas empresas indianas de referência a respetiva cotação de dois produtos cerâmicos nos formatos 60×60 e 60×120 denominados de marmorizados polidos. “Os valores por metro quadrado dos mesmos colocados em Leixões foi de cerca de seis euros. Para se ter a noção, este valor é pelo menos 50% inferior ao seu custo industrial em Portugal e na Europa. Perante este facto o que resta à nossa indústria é abandonar a produção e optar pela importação de carbono em larga escala, uma vez que nesta data todos os incentivos são dados à desindustrialização do nosso país”, lamenta Jorge Vieira.
A indústria cerâmica é relevante para a economia portuguesa, com um peso significativo nas exportações e com recurso a matérias-primas nacionais. A equação é simples: energia cara, carbono caro e concorrência barata. Um triângulo que pode redefinir o mapa da cerâmica europeia e portuguesa.

Veja ainda o outro texto sobre o tema: Histórias da resistência dos que ficam.

Retrato do setor

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