Chamam-lhe o corredor energético “verde” e é-nos apresentado como a solução para os problemas de segurança energética que a invasão da Ucrânia pela Rússia de Putin veio agudizar. Mas o projeto de construção deste gasoduto poderá vir a ficar para a história como um puro eufemismo e, como tal, vir eternizar o recurso ao gás fóssil, no que poderá ser um retrocesso relativamente aos objetivos do Pacto Ecológico Europeu (PEE) ou do RepowerEU.
Em causa está a construção de um gasoduto submarino que ligará Barcelona a Marselha, bem como das ligações complementares por gasoduto entre Portugal (Celorico da Beira) e Espanha (Zamora), ligações estas que se diz poderem vir a servir, no futuro, para o transporte exclusivo de hidrogénio, mas numa primeira fase servirão para transportar gás natural, num investimento total previsto de 2,85 mil milhões de euros.
Quando estamos atrasados no combate às alterações climáticas, ao invés de carregarmos no acelerador para uma transição energética, eis que surge um avultado investimento num projeto que, como alertam as organizações não-governamentais de ambiente (ONGA), é de duvidosa imprescindibilidade, sem claros benefícios e viabilidade técnico-económica e com elevados custos económicos e ambientais.
De entre os impactos negativos e até irreversíveis para o ambiente, destacam-se os decorrentes do atravessamento do Golfo de Leão, uma área com o mais elevado índice de biodiversidade do Mediterrâneo, pelas suas áreas marinhas protegidas, corredores de cetáceos, pradarias marinhas e santuário para animais marinhos. Tanto a ONGA portuguesa Zero como a espanhola Ecologistas en Acción e a alemã Deutsche Umwelthilfe falam assim em “pretensões ambientais questionáveis” para dar cobro a um projeto que classificam de “contraproducente e [que] entra em conflito com as políticas de descarbonização da União Europeia, pondo mesmo em causa os objetivos climáticos”.
Neste como em tantos outros projetos, infelizmente, a falta de planeamento ajustado a cenários climáticos há muito conhecidos, para os quais a comunidade científica vem alertando, e o protelar da tomada de ação em linha como que deveria ser uma adequada política climática resultam em projetos desajustados e que, ao invés de contribuírem para a resolução do problema, podem contribuir para o seu agravamento.
Já não bastava a curta e insuficiente ambição contida em objetivos como a redução combinada de gás fóssil no âmbito do PEE e do RepowerEU para que possamos travar o aquecimento global nos 1,5ºC, menos se compreende que a resposta que nos é apresentada passe por este tipo de projeto que só estará concluído em 2030, ano em que deveríamos ter reduzido largamente o consumo de gás fóssil!
Não podemos continuar a aceitar políticas de greenwashing, que, em nome da “transição verde”, consomem recursos financeiros de eficácia duvidosa, onerando as presentes e futuras gerações e sacrificando os valores naturais que a todos pertencem.