As bolsas europeias e a portuguesa acordaram na segunda-feira mergulhadas no vermelho. Entre as cotadas portuguesas mais penalizadas na abertura estiveram a Ibersol (-8,73%), a Teixeira Duarte (-4,53%) e a Mota-Engil (-4,75%). Entre os principais índices europeus as maiores desvalorizações foram para Espanha, Itália e Alemanha que abriram com descidas de 3,01%, 2,44%, e 2,48%. Dólar chegou a ter o nível mais elevado desde o final de janeiro.
Mas no fecho dos mercados quer a Teixeira Duarte quer a Mota-Engil recuperaram parte das perdas, deixando o posto das mais penalizadas de segunda-feira, contudo acabaram o dia no vermelho ao descerem 0,39% e 1,63%, respetivamente. As mais penalizadas no fecho da bolsa portuguesa foram a Semapa (-3,16%), a Navigator (2,9%) e o Banco Comercial Português (BCP).
O mesmo vale para os índices espanhol, italiano e alemão que acabaram o dia com desvalorizações de 2,72%, 2,03% e 2,69%. Pelo meio o índice francês (CAC 40) desceu 2,17%.
Mas os motivos que justificaram o vermelho, vivido na bolsa portuguesa e europeia, vão mais além de um simples pânico por parte do mercado motivado pelo rebentar de um conflito armado entre Estados Unidos e Irão. As razões das quedas da Mota-Engil e da Teixeira Duarte e dos mencionados índices europeus [Espanha, Itália e Alemanha] são muito mais abrangentes e devem-se em parte à exposição que possuem a mercados que podem ser afetados pelo prolongar do conflito armado nessa região do globo, assinala o head of trading do Banco Carregosa, João Queiroz.
João Queiroz destacou ainda as perdas registadas pelo BCP. O head of trading do Banco Carregosa referiu que a cotada se destacou, na segunda-feira, pela negativa, tendo em conta que em dois anos “acumula fortes ganhos o que a deixa vulnerável a variações de sentimento e sendo uma cíclica tende a ser sistematicamente alvo de vendas em ambientes de “risk-off” global. A queda aparenta exagerada face aos fundamentais e pode representar uma oportunidade técnica caso o conflito não escale”.
Para João Queiroz a descida que se verificou a determinada altura da sessão na Mota-Engil apresentou uma “correção com bases mais sólidas”, em comparação com o sucedido no BCP, atendendo à sua exposição geográfica direta às zonas de influência” do conflito. “A Mota-Engil tem presença ativa em projetos de construção e infraestruturas no Omã e noutros países do Golfo, com risco real de paragem ou renegociação de contratos em curso. Paralelamente, a sua operação em África — Angola, Moçambique, Nigéria e Etiópia, entre outros — concentra-se em economias dependentes do petróleo onde a volatilidade dos preços cria imprevisibilidade nos orçamentos de investimento público e, consequentemente, nos contratos de construção adjudicados. No curto prazo, o risco principal reside na paragem ou atraso de novas adjudicações em mercados do Médio Oriente e na reavaliação dos ratings de risco-país, que pode encarecer ou contrair as condições de financiamento dos projetos existentes”, sublinha o head of trading do Banco Carregosa.
O head of trading do Banco Carregosa acrescentou que as perdas que a Teixeira Duarte foi tendo durante o dia “partilharam alguns dos vetores de risco” da Mota-Engil, devido às “operações relevantes” que a empresa possui em Angola e à presença no setor de construção e imobiliário nos Emirados Árabes e Qatar.
“É importante sublinhar que um crude mais elevado é estruturalmente positivo para Angola a médio prazo, gerando mais receitas públicas e consequentemente maior capacidade de investimento em infraestruturas. Contudo, no imediato, a incerteza sobre a escalada do conflito e a sua extensão geográfica, conjugada com a pressão sobre contratos denominados em dólares com clientes soberanos em fase de renegociação orçamental, justifica o desconto de risco aplicado pelo mercado”, salienta João Queiroz.
Uma das cotadas beneficiadas pelo conflito entre iranianos e norte-americano acabou por ser a Galp Energia. A cotada fechou a valorizar 7,25% devido aos “mais elevados preços de energia”, assinalou João Queiroz.
Sobre as cotadas portuguesas, o analista da ActivTrades, Henrique Valente, sublinha que a queda tem sido “relativamente limitada”, acrescentando que se tratam de ações com pouca liquidez e, por isso, “não são normalmente as primeiras a ser vendidas” em momentos de pânico. “De forma geral, a exposição direta aos países afetados pelo conflito é reduzida, embora exista alguma exposição indireta através de projetos internacionais, sobretudo no caso das empresas de construção [como a Mota-Engil e a Teixeira Duarte] e concessões. No curto prazo, o impacto deverá ser sobretudo financeiro e não operacional, decorrente de uma maior perceção de risco e pressão nas margens devido à subida dos custos energéticos”, assinala o analista da ActivTrades.
Queda de índices em Espanha, Itália e Alemanha possuem motivos estruturais
“A queda [dos índices bolsistas] de Espanha, Itália e Alemanha tem fundamentação estrutural que vai além da reação emocional, característica destes momentos. No caso de Espanha e Itália, ambas são economias importadoras líquidas de energia, altamente dependentes do crude do Médio Oriente”, explica João Queiroz ao Jornal Económico (JE).
A isto junta-se também o comportamento do petróleo que na segunda-feira disparou devido ao conflito que rebentou em terras iranianas. “Um brent a 80 dólares comprime margens nas indústrias intensivas em energia e alimenta pressão inflacionista, penalizando em primeira linha os sectores de turismo, utilities e industrial, que têm peso significativo nos respetivos índices. Acresce que o mercado obrigacionista destas economias reage negativamente a renovadas pressões inflacionistas — o alargamento dos spreads do BTP italiano e dos Bonos espanhóis penaliza o setor financeiro, que é um dos pilares destes índices”, adianta João Queiroz.
Por altura do fecho dos mercados europeus o brent subia 6,18% para os 77,37 dólares e o crude valoriza 5,45% para os 70,67 dólares.
“A Alemanha apresenta um perfil de vulnerabilidade distinto, mas igualmente sólido. A sua economia é ultra-dependente da energia para sustentar o modelo exportador industrial nos setores automóvel, químico e de maquinaria. Num contexto em que o país já se encontrava em recessão técnica, qualquer choque externo produz um efeito amplificado”, assinala João Queiroz.
“Adicionalmente, o índice bolsista alemão DAX tem exposição relevante à China via exportações, e a conflitualidade no Médio Oriente cria pressão adicional sobre cadeias de abastecimento globais que já se encontravam fragilizadas. Existe ainda um fator transversal a todos os índices europeus: a apreciação do dólar penaliza através de um duplo canal, tornando as importações energéticas mais caras em euros e encarecendo o crédito em dólares para empresas europeias com dívida denominada nessa moeda”, adianta o head of trading do Banco Carregosa.
O analista da ActivTrades, Henrique Valente, sublinhou que as quedas verificadas nos índices europeus são explicadas sobretudo pelo conflito no Médio Oriente e pelas consequências da subida do preço do petróleo na economia.
“Neste tipo de eventos, os investidores tendem a vender primeiro e a fazer perguntas depois”, assinala Henrique Valente.
“É verdade que estamos a ver algum pânico nos mercados, mas é justificado e, até agora, com perdas relativamente limitadas nos índices europeus e asiáticos”, adianta Henrique Valente, que acrescentou que “qualquer escalada adicional” no Médio Oriente “poderá intensificar” a correção nos ativos de risco.
Mercado estará atento a evolução do petróleo
O head of trading do Banco Carregosa assinala também que face a alguns eventos semelhantes, caracterizados por forte pendor geopolítico, o mercado “estará mais atento” à evolução dos preços do crude, sobretudo, pelo “eventual risco” do contrato do Brent tender, ou apresentar uma tendência, para os 100 dólares/ barril, e os impactos que se podem traduzir nas “mais onerosas importações e um menos benigno ritmo de crescimento” do PIB mundial. “Todavia, para investidores com níveis de liquidez mais conservadores, poderão observar algumas oportunidades para carteiras com horizonte de investimento de médio e longo-prazo”, diz João Queiroz.
Dólar valoriza com conflito no Médio Oriente
O conflito entre Estados Unidos e Irão acabou também por abanar os mercados cambiais.
O índice do dólar, que segue o desempenho da moeda norte-americana face a um cabaz de seis moedas, atingiu o nível mais elevado desde o final de janeiro, com os investidores a procurarem abrigo em ativos refúgio.
“O movimento foi um forte indício de que o dólar norte-americano continua a ser a moeda de refúgio preferida dos investidores e que aqueles que preveem uma maior desvalorização devido à desdolarização podem estar a precipitar-se um pouco”, disse o analista de mercado da Trade Nation, David Morrison, citado pela publicação financeira Investing.
Contudo David Morrison considera que o ímpeto de subida do dólar “pode ser limitado pelas preocupações” com a estagflação, tendo em conta que o Índice de Preços no Produtor (IPP) dos Estados Unidos, divulgado na sexta-feira, acima do esperado, “reacendeu os receios de uma inflação persistente, mesmo com o crescimento a mostrar sinais de abrandamento”.
O ING assinalou, numa nota, transcrita pelo Investing, que a “menos que haja alguma desescalada rápida”, o par cambial euro/dólar “pode facilmente ser empurrado de volta para a região de 1,1575/1,1650, com risco externo para a região de 1,1575/1,1600”, ou seja, o dólar pode continuar a tendência de valorização que se verificou na segunda-feira.
“Os investidores estavam certos em questionar o estatuto de porto seguro do dólar este ano, mas dada a natureza deste choque (na energia), será o dólar que mais beneficiará”, acrescentou o ING.
Quanto ao euro/franco suíço atingiu o seu nível mais forte em mais de uma década em relação ao euro, salienta a publicação Investing, enquanto que o par dólar/yen ultrapassou os mínimos de 34 meses atingidos na semana passada.