Compra de ações dos CTT pela Parpública teve parecer da UTAM que foi mantido secreto (CORREÇÃO)

A compra de ações dos CTT pela Parpública, noticiada ontem pelo Jornal Económico, teve lugar sem que o necessário parecer obrigatório por parte da Unidade Técnica de Acompanhamento e Monitorização do Sector Empresarial do Estado (UTAM) fosse publicado no seu site.

Compra de ações dos CTT pela Parpública teve parecer da UTAM que foi mantido secreto (CORREÇÃO)
CTT

Notícia corrigida às 00h00 do dia 4 de janeiro de 2024 (ver Nota da Direção no final)

 

O artigo 11 do Decreto Lei 133/2013 estabelece que a compra ou venda de participações sociais pelas empresas do sector empresarial do Estado carecem de autorização dos membros do Governo responsáveis pela área das Finanças e do sector de atividade em questão, bem como de um parecer prévio da UTAM. Além disso, o mesmo artigo refere que a autorização por parte do Governo deve ser “obrigatoriamente publicada” no sítio de Internet da UTAM.

Tal como o Jornal Económico noticiou esta terça-feira , a compra de ações dos CTT pela Parpública ocorreu por ordem do Governo da altura, existindo um despacho assinado pelo então ministro João Leão. Mas à data de hoje, nem este despacho, nem o parecer da UTAM estão disponíveis na página de Internet da Unidade Técnica.

O Jornal Económico questionou a Parpública e a UTAM a este respeito, mas até ao momento não foi possível obter esclarecimentos destas entidades. O Ministério das Finanças foi questionado sobre a compra de ações dos CTT pela Parpública no ano passado e novamente no início desta semana, mas até ao momento não respondeu às questões do Jornal Económico.

Em causa está a compra de ações dos CTT pela Parpública, entre 2020 e 2021, por ordem do Governo. A holding do sector empresarial público mantém atualmente uma participação não-qualificada no capital da empresa que gere o serviço universal de correios, que nunca foi divulgada.

A compra das ações dos CTT teve lugar numa altura em que o governo liderado por António Costa procurava assegurar o apoio do Bloco de Esquerda para aprovar o Orçamento do Estado para 2021, o último da “geringonça”. Pedro Nuno Santos, atual líder do PS, tinha a tutela sectorial dos CTT, enquanto ministro das Infraestruturas.

Ao que o Jornal Económico apurou, o Bloco exigia uma reversão da privatização dos CTT, à semelhança do que sucedera em empresas como a TAP e a Carris. O Governo socialista comprometeu-se então a construir uma participação pública na empresa de correios, através da compra de ações no mercado de forma sigilosa, pela Parpública. Mas a administração desta última exigiu que a ordem fosse dada por escrito. Por essa razão, existe um despacho assinado pelo então ministro das Finanças, João Leão (que ocupou o cargo entre junho de 2020 e março de 2022), a instruir a Parpública nesse sentido.

O processo deveria ser gradual e dar origem a uma participação significativa do Estado no capital da empresa, mas a queda do Governo, no final de 2021, com o chumbo do Orçamento do Estado para o ano seguinte, colocou um ponto final na operação. O executivo seguinte, de maioria absoluta do PS, meteu a compra de uma participação pública relevante nos CTT na “gaveta”.

Porém, o novo governo não deu instruções para que as ações fossem vendidas de forma igualmente discreta, pelo que existe ainda uma participação da Parpública nos CTT, que é inferior a 2% do capital e que, por essa razão, nunca foi comunicada ao mercado. Também não surge discriminada nos relatórios da Parpública, embora o mesmo não aconteça com as participações simbólicas que a holding estatal mantém em outras empresas, como a NOS (71 ações) ou a Unitenis (5 ações).

Questionada pelo Jornal Económico, fonte oficial da Parpública confirmou a existência de uma posição “residual” no capital dos CTT e que a mesma será identificada na carteira de participações, nos próximos relatórios anuais da empresa.

IL reage: da evolução das ações dos CTT ao papel de Pedro Nuno Santos

A Iniciativa Liberal (IL) reagiu esta terça-feira à notícia do JE, em dois momentos e através das redes sociais. Rui Rocha focou-se em Pedro Nuno Santos por ter sido durante vários “o elemento de ligação entre o Governo” e os partidos à sua esquerda e quer saber qual foi o seu papel nesta operação assim como “que outras decisões similares foram tomadas por pressão do Bloco de Esquerda ou do PCP, com prejuízo directo para os interesses dos contribuintes”.

O antigo presidente da IL, Carlos Guimarães Pinto, também se expressou face à notícia avançada pelo JE, com um outro ângulo de análise, já que partilhou nas redes sociais um gráfico sobre a forma como evoluiu a valorização das ações dos CTT nesse período.

“Muito interessante a evolução dos preços das ações dos CTT no período das compras secretas por parte estado português. Alguém mais bem informado sobre a entrada de um grande comprador, com potencial de fazer subir o preço, pode(ria) ter feito bom dinheiro”, realçou Carlos Guimarães Pinto.

 

NOTA DA DIREÇÃO DO JORNAL ECONÓMICO 

O facto de o parecer da UTAM relativo à compra das ações dos CTT ter sido mantido secreto por decisão do ministro das Finanças, apesar de a lei obrigar à sua publicação obrigatória no site daquela entidade, contribuiu para que erradamente tenhamos publicado, na primeira versão desta notícia, que o mesmo não existia, dando crédito a informações que recebemos nesse sentido e que não correspondiam à verdade.

Importa salientar, contudo, que tanto a Parpública como a UTAM foram questionadas sobre o referido parecer, antes da publicação desta notícia, não tendo respondido até ao momento às nossas questões.

Tal facto não nos isenta de responsabilidades, porém, pelo que a Direção do Jornal Económico pede desculpa aos leitores e à UTAM.

 

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