A Grécia conseguiu um acordo de última hora para estender o seu programa de ajustamento por quatro meses, conseguindo assim tempo para negociar a forma como irá terminar o atual programa e quais os próximos passos para a recuperação económica, sustentabilidade financeira e, no limite, manutenção no Euro. Durante as últimas semanas as negociações entre as instituições financeiras e a Grécia foram mesmo o tema central – quase único – para os investidores e analistas. Houve outros, como: a recuperação do crescimento económico da Zona Euro no último trimestre de 2014 (1,3% vs 1% estimados pelo analistas); a excelente earnings season das empresas norte-americanas e europeias; e, também, a “guerra cambial” que se alastrou das economias emergentes para as desenvolvidas, com a Dinamarca a ameaçar impor controlos cambiais para manter o peg face ao Euro. Mas as negociações entre a Europa e a Grécia foram, sem dúvida, o grande tema.
Durante o mês, e mesmo com os receios de Grexit, os mercados financeiros apreciaram e inclusivamente o EURUSD transacionou entre os 1,13 e os 1,14, num sinal de confiança dos investidores na Zona Euro – entretanto nos 1,12.
Algumas incógnitas parecem sobressair destas performances dos mercados financeiros. Nomeadamente, como é que os receios de Grexit se refletiram de forma tão ténue nos ativos de risco?
Por um lado, como mencionado, as restantes notícias no plano macroeconómico e microeconómico foram positivas. Por outro lado, também pareceu sempre existir confiança num desfecho benéfico para a situação da Grécia.
Existe, contudo, outra perspetiva: uma saída da Grécia não teria, agora, o mesmo impacto na Zona Euro que há uns anos atrás.
Hoje, com as correções em diversos campos que foram aplicadas, a Europa estará melhor preparada para lidar com uma possível saída da Grécia. Em primeiro lugar, as economias que possivelmente seriam alvo de maior contágio fizeram um “trabalho de casa” significativo para corrigir o desequilíbrio das contas públicas e balança externa, trabalho esse que não está concluído mas cujas benesses são percebidas como positivas pelos mercados. Depois, o BCE aplicou medidas de proteção financeira, desde a concessão de liquidez à redução de juros, passando pela maior supervisão, que contêm os efeitos no sistema financeiro. Em terceiro lugar, o próprio setor financeiro reduziu a sua interligação aos ativos de risco, nomeadamente a dívida da economia grega.
Esta perceção, por parte dos agentes de mercado, terá contribuído para uma boa “digestão” dos receios do Grexit.
Duarte Mallaguerra Nunes
Direção de Investimentos, Banco Best