Após um verão cruel que deu lugar a um outono de seca extrema, o país começa a despertar para a nova realidade que o espera de uma única estação longa e seca que se mantém por meses e traz com ela a desflorestação, os incêndios, a falta de chuva e secas extremas, deixando para trás a ideia inocente de verão que durante tanto tempo imperou nas nossas mentes. Face a este tempo inclemente, começamos a compreender a fragilidade do território e de políticas obsoletas, que expõem de forma tão crua a nossa falta de preparação para o combate às alterações climáticas.
Como consequência de um tempo quente por meses seguidos, a juntar-se a outros fatores como a instabilidade em zonas do globo que durante anos ocuparam o topo de lugares mais visitados, o turismo entra numa fase galopante em Portugal com mais de 20 milhões a visitar o país em 2017. A oferta imobiliária e hoteleira mal tem sido suficiente para tanta procura, e observamos várias coisas a sucederem-se: o mercado imobiliário está altamente inflacionado, os trabalhos precários proliferam na indústria hoteleira e de turismo, o arrendamento torna-se inalcançável, com impacto negativo naqueles que vivem, trabalham e estudam nas cidades.
Apanhados por sucessivas transformações, os jovens são forçados a repensar as suas noções de emprego e estabilidade perante os deuses da tecnologia e empreendedorismo que trazem com eles inteligência artificial e suficiente jargão técnico que nos irá convencer da nossa auto-suficiência e capacidade para nos tornarmos ricos quando, na verdade, esses deuses sustentam-se no mesmo velho capitalismo ganancioso que nos enterra cada vez mais em precariedade e desigualdade. E por falar em desigualdade, o fosso social alarga-se cada vez mais. As grandes fortunas concentram-se no 1%, e há bolhas de bem-estar num mar cada vez mais crescente de desassossego, protesto e raiva.
Os que se aproveitam dessa raiva, tudo têm feito para propagar as suas ideias marcadas pela intolerância. Observamos hoje, mais do que nunca, as guerras culturais que irrompem em muitos países, com grande agressividade, travadas nas ruas e redes sociais. Guerras entre progressistas vs. tradicionalistas, entre tolerância vs. racismo e homofobia, secularismo vs. moralismo, esquerda vs. direita, marcadas por visões polarizadoras do que devia ser a nossa sociedade. Isto, por sua vez, sujeita-nos a um ambiente cada vez mais tóxico de opiniões que se digladiam entre si, numa tentativa de declarar uma opinião (na verdade ideia) superior a outra.
Como consequência dessas ideologias cada vez mais polarizadoras, não estará a guerra cultural a exprimir a infindável guerra de classes, condenando-nos a um ciclo de conflito pautado por injustiça e desigualdade? Fica a reflexão.