A recente literatura sobre a economia da felicidade – área do saber que estuda a relação entre as questões económicas e a satisfação individual das pessoas – “vem demonstrar que o que realmente importa para o bem-estar das pessoas vai muito além do que é captado por um indicador económico como o PIB”, afirma Maria da Conceição Pereira, docente da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e investigadora do Centro de Investigação em Economia e Gestão.
A investigadora coordenou um estudo internacional que conclui que há várias combinações de condições que permitem atingir um elevado bem-estar subjetivo, o que significa que diferentes países podem adotar políticas distintas para conseguir um elevado bem-estar das pessoas.
A literatura tem vindo a apresentar como características típicas de países com um elevado bem-estar subjetivo “elevado PIB per capita, elevado individualismo, baixa distância em relação ao poder, baixa masculinidade e baixa aversão à incerteza, o que sugere que existe uma receita única para promover o bem-estar de uma nação”, diz Maria da Conceição Pereira. No entanto, salienta, no caso concreto desta investigação, foi possível revelar que existem “múltiplos caminhos ou combinações que resultam igualmente no bem-estar subjetivo de uma nação, o que significa que há nações que diferem nos ingredientes que as tornam (in)felizes”.
A investigação analisou condições como rendimento nacional, distribuição de rendimentos, qualidade das instituições e várias dimensões culturais (como a masculinidade, o individualismo ou a distância em relação ao poder) e dados de 2019 (referentes a 75 países), de 2015 (de 84 países) e de 2005 a 2007 (referentes a 74 países, neste caso com recurso às médias dos três anos) de países de diferentes regiões do globo.
Os investigadores usaram uma metodologia inovadora na área da economia da felicidade – denominada fuzzy set qualitative comparative analysis (fsQCA), que permitiu conduzir “uma abordagem combinatória, que permite a investigação empírica de todas as combinações possíveis de condições que atuam em sinergia para alcançar um resultado específico, em vez de se focar nos efeitos individuais de cada condição, o que é típico das análises correlacionais”, explica Maria da Conceição Pereira.
Para além de sublinhar que não há apenas um caminho para atingir um elevado bem-estar subjetivo, mas, sim, várias receitas, a investigação revela ainda que “nenhuma das condições consideradas na análise – rendimento nacional elevado, igualdade de rendimentos, instituições de elevada qualidade e as várias dimensões culturais – é necessária para um elevado bem-estar subjetivo”, destaca Maria da Conceição Pereira. No entanto, “uma elevada distância do poder e um baixo individualismo são condições necessárias para alcançar um baixo bem-estar subjetivo”, acrescenta. Estas condições observam-se em países como a China e a Rússia.
Adicionalmente, o estudo revela que “as combinações de condições que conduzem a um bem-estar subjetivo baixo não são necessariamente opostas às que resultam num bem-estar subjetivo elevado”, sublinha a docente da Universidade de Coimbra.
Sobre a importância deste estudo, Maria da Conceição Pereira explica que “os governos baseiam as suas decisões de política económica em indicadores tradicionais de desempenho económico como o Produto Interno Bruto (PIB), admitindo-o como indicador de bem-estar de um país e da sua população”. No entanto, “há mais de quatro décadas que são reconhecidas as limitações deste indicador”, acrescenta.
As conclusões do estudo têm implicações para os governos que incluem nas suas agendas outras formas de medição de indicadores de bem-estar subjetivo das suas populações, de forma a obter uma métrica mais holística para avaliação das políticas económicas, diz ainda a investigadora.
O estudo contou com a participação de Filipe Coelho, docente da FEUC e investigador do CeBER, e de Graça Miranda Silva, professora do Iseg da Universidade de Lisboa.
O artigo científico Is there a happy culture? Multiple paths to national subjective well-being, publicado na revista Kyklos, pode ser lido aqui.