Bancos centrais e fundos soberanos alteram base dos investimentos

Quanto mais planetárias são as crises, mais as instituições tendem a refugiar-se no ouro como ativo 'de passagem', à espera de melhores dias. Os países emergentes também estão em alta - ao contrário do que se passa com a moeda chinesa.

Bancos centrais e fundos soberanos alteram base dos investimentos
Cerca de 49% do ouro português está noutros bancos centrais estrangeiros

Um número crescente de países está a repatriar reservas de ouro como proteção contra as sanções impostas à Rússia pelo Ocidente à Rússia, de acordo com um inquérito realizado pela consultora Invesco a bancos centrais e fundos soberanos publicado esta segunda-feira e citado pela “Reuters”.

A queda dos mercados financeiros no ano passado causou perdas generalizadas na gestão dos fundos soberanos, que estão agora a repensar as suas estratégias – na convicção de que a inflação mais alta e as tensões geopolíticas vieram para ficar.

Mais de 85% dos 85 fundos soberanos e 57 bancos centrais que participaram no estudo anual Invesco Global Sovereign Asset Management acreditam que a inflação será mais elevada na próxima década que na última. Nesse novo contexto, o ouro e os títulos de mercados emergentes são vistos como boas apostas, mas o congelamento no ano passado de quase metade dos 640 mil milhões de dólares em reservas de ouro e câmbio da Rússia pelo Ocidente em resposta à invasão da Ucrânia também parece ter desencadeado uma mudança.

O estudo mostra que uma “parcela substancial” dos bancos centrais está preocupada com o precedente estabelecido. Quase 60% dos entrevistados disseram que a nova envolvente tornou o ouro outra vez mais atraente. Dos inquiridos, 68% manteve as reservas no mercado interno, em comparação com os 50% de 2020.

Um banco central, citado anonimamente, disse: “Nós tivemos ouro em Londres… Mas agora transferimo-lo de regresso ao próprio país para o manter como um ativo de refúgio seguro”.

Rod Ringrow, gestor do segmento de instituições oficiais da Invesco, que supervisionou o relatório, disse que essa é uma visão amplamente defendida. “Se é o meu ouro, então eu quero-o no meu país; tem sido este o mantra que vemos no último ano”, disse.

As preocupações geopolíticas combinadas com as oportunidades em mercados emergentes, também estão a encorajar alguns bancos centrais a diversificarem do dólar. Uns 7% acredita que o aumento da dívida dos Estados Unidos é negativo para o dólar, embora a maioria ainda não veja alternativa como moeda de reserva mundial. Aqueles que veem o yuan chinês como um potencial candidato caíram de 29% para 18% no ano passado.

Quase 80% das 142 instituições que participaram na pesquisadas veem as tensões geopolíticas como o maior risco na próxima década, enquanto 83% citaram a inflação como uma preocupação para os próximos 12 meses.

As preocupações com a China fizeram com que a Índia continue a ser um dos países mais atrativos para investimentos pelo segundo ano consecutivo, enquanto a tendência de ‘near-shoring’, em que as empresas constroem fábricas mais próximas de onde vendem os seus produtos, está a impulsionar países como o México, Indonésia e Brasil. China, Reino Unido e Itália são vistos como menos atrativos.

Ringrow disse que os fundos que tiveram melhor desempenho no ano passado foram os que reconheceram os riscos representados pela inflação dos ativos e estavam dispostos a fazer mudanças substanciais na carteira. “Os fundos e os bancos centrais estão tentando lidar com a inflação mais alta. É uma mudança radical.”

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