Filipe Garcia, Economista Conselheiro; IMF, Informação de Mercados Financeiros

Banca e Governo

A polémica dos Certificados de Aforro deriva da existência de uma condição de base: a fraquíssima remuneração que a banca tem vindo a oferecer aos seus depositantes.

O assunto da semana foi a mudança de regras dos Certificados de Aforro. Estes produtos, que pretendem incentivar a poupança, já existem desde 1960, mas nunca tiveram o destaque mediático que alcançaram nas últimas semanas.

A polémica deriva da existência de uma condição de base: a fraquíssima remuneração que a banca tem vindo a oferecer aos depositantes, em termos absolutos e relativos. Há meses que a estratégia da banca é discutível. A primeira vez que abordei o tema neste espaço foi em setembro (ler aqui) e reforcei a ideia em março (ver aqui), explorando a ideia de que alargar o spread entre taxas ativas e passivas iria conduzir a danos de relação entre clientes e bancos.

A banca tem vindo a refugiar-se no argumento do baixo rácio de transformação, mas não há efetivamente uma justificação. No limite, a banca pode apenas intermediar depósitos, aceitando-os dos clientes e parqueando no Banco Central Europeu.

O Governo também não sai bem na fotografia. Devemos acreditar nas palavras do Sr. Secretário de Estado e na APB quando nos dizem que não houve pressão sobre a tutela para mudar as regras, mas esta era uma forma de as famílias – que não têm as armas de investidores com maiores montantes – poderem lutar contra a inflação e mitigarem a perda de poder de compra das suas poupanças e dos seus fundos de emergência. E o timing, tendo a banca perdido depósitos, é muito discutível.

Compreendo que o facto de os Certificados de Aforro já representarem mais de 10% da dívida pública faça “mexer o ponteiro” do custo médio de financiamento, mas a sustentabilidade da dívida também passa por ter mais montante colocado internamente (foi uma das críticas da troika) e, não esquecer, as famílias pagam IRS “à cabeça” nestes produtos, ao contrário dos credores internacionais. Ou seja, como 28% do custo da dívida fica no Estado, o custo real máximo não era 3,5%, mas 2,5%.

Na minha opinião, a fazer algo, teria bastado alterar o montante máximo de subscrição para garantir a defesa das famílias com menos graus de liberdade e literacia financeira e, em simultâneo, atender aos objetivos discutíveis de “sustentabilidade da dívida pública”.

Relacionado

Economistas desvalorizam risco de crise apesar da escalada das yields da dívida soberana a nível mundial

Economistas desvalorizam risco de crise apesar da escalada das yields da dívida soberana a nível mundial

Maria Teixeira Alves4 Set
As yields da dívida soberana de longo prazo têm vindo a subir de forma sincronizada nas principais economias desenvolvidas, com os Estados Unidos, o Japão e vários países europeus a registarem níveis não vistos em décadas. Mas os economistas ouvidos pelo Jornal Económico consideram pouco provável que a tendência desemboque numa crise, apontando antes para efeitos mais concentrados no investimento empresarial e nas contas públicas de cada país.
Yields disparam com obrigações soberanas sob pressão a nível global

Yields disparam com obrigações soberanas sob pressão a nível global

João Barros1 Set
No Japão, os títulos a dez anos bateram máximos de 30 anos ao ultrapassarem os 3%, enquanto nos EUA, Reino Unido, Alemanha e França as subidas foram mais contidas, mas suficientes para renovar máximos recentes. Também os títulos portugueses se veem envolvidos na tempestade global das bonds, com os títulos a 20 anos próximos de máximos de quase uma década.