A brisa e o cheiro tanto a maresia como a peixe não deixam enganar: chegámos à Nazaré, o município da maior onda do mundo. Desta vez, não são os surfistas que fazem correr tinta e põem a Nazaré no mapa, mas o novo projeto de produção alimentar em aquaponia que envolve dezenas de milhões de euros. Designa-se “AmpliAqua” e foi formalmente inaugurado esta terça-feira.
O presidente da Câmara Municipal da Nazaré “cortou a fita” desta estufa de aquacultura e hidroponia, no Porto da Nazaré, onde enalteceu as mais-valias do concelho e os potenciais desta iniciativa de capital público-privado, que crê poder resultar “numa promoção ainda maior do território” e tornar a vila numa “referência sustentável”.
“Recebemos de braços abertos este tipo de investimento e temos tudo para fazer, replicar e dar-lhe condições de sucesso. O Porto da Nazaré tem um potencial desenvolvimento único no nosso país e de ser porto de abrigo para projetos de inovação de alto valor acrescentado”, afirmou Manuel António Sequeira, na cerimónia de inauguração, que decorre esta tarde.
“É um concelho que junta tradição ao desenvolvimento, um cluster focado no desenvolvimento de técnicas de valor acrescentado que ligam o mar e a terra ao desenvolvimento sustentável. Recebemos turistas de mais de 120 nacionalidades, que buscam as nossas terras, gastronomia e mar, mas também qualidade e sustentabilidade. É por terem essas premissas bem presentes que as empresas do nosso território exportam para os cinco continentes”, disse o autarca da Nazaré.
O CEO da aceleradora BGI – Building Global Innovators, que está entre os investidores, aproveitou a ocasião para pedir à Câmara Municipal da Nazaré celeridade nos licenciamentos, para que o AmpliAqua decorra dentro dos trâmites e prazos previstos. Gonçalo Amorim apresentou os detalhes técnicos do projeto, explicando à audiência que esta primeira fase é pré-comercial e está totalmente relacionada com investigação e tecnologia (TRL – Technology Readiness Level 6-7).
As primeiras etapas passam por criar uma base de dados para análise de microalgas e apostar na tecnologia RAS, relacionada com aquacultura (produção de espécies marinhas em ambiente controlado). Como metade do consumo mundial de peixe advém de aquacultura, o CEO da BGI considera que “o mercado continua a aceitá-la – e não há outra forma de o fazer” devido à procura.
Os testes também abrangerão os off-flavors i.e. quando os peixes, como o salmão, ficam com impurezas ou odores indesejados durante este processo de criação.

O presidente do conselho de administração da Docapesca garantiu aos promotores que podem contar com a autoridade portuária para mais parcerias desta natureza, que tragam mais postos de trabalho qualificados.
“No processo de transferência de competências, vimos que havia aqui no port atividades que não se relacionavam com a alimentação e pesca, como lazer, que fazia sentido para os municípios. Ficámos com esta área toda para ajudar a desenvolver”, contextualizou Sérgio Faias, enumerando o que se irá passar nestes 630 metros quadrados de estufa: um laboratório de experimentação de técnicas de aquaponia e produção de mais de 17 mil plantas/vegetais.
“A partir deste porto de pesca, com valor nutricional e económico, sai daqui pescado para o mundo todo. A qualidade das águas potencia outro tipo de investimentos, que serve a necessidade de consumos de uma população cada vez maio”, sintetizou o chairman da Docapesca.