Frederico Aragão Morais, Senior Consultant, Ernst & Young

As barreiras fiscais de um futuro sustentável

As limitações da política fiscal na luta contra as alterações climáticas são significativas, mas não insuperáveis. Urge, por isso, pensar numa abordagem prudente e equilibrada.

A luta contra as alterações climáticas é uma das principais preocupações a nível global nos dias de hoje. A necessidade de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa e de limitar o aumento da temperatura média do planeta é urgente e requer a implementação de medidas coordenadas a nível internacional.

Nesse sentido, o Acordo de Paris, assinado em 2015, estabeleceu metas ambiciosas para limitar o aumento da temperatura global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, o que significaria reduzir a temperatura média em aproximadamente 1,3°C.

Para além disso, a União Europeia comprometeu-se também a reduzir as emissões de gases com efeito de estufa em 55%, até 2030, e a alcançar emissões líquidas zero de CO2 até 2050. No entanto, chegar a estes objetivos exige investimentos significativos, o que coloca pressão sobre as finanças públicas dos países da União. França, por exemplo, planeia gastar cerca de 40 mil milhões de euros, aproximadamente 1,5% do PIB, em medidas de combate às alterações climáticas em 2024.

Como de costume, qualquer esforço fiscal significativo traz para cima da mesa a questão da sustentabilidade da dívida pública. Também por isso, França espera arrecadar 26 mil milhões de euros, cerca de 1% do PIB, em receitas (graças a taxas de carbono e outros impostos), resultando num aumento líquido de gastos de 0,5% do PIB.

Existem, então, dois pesos (objetivos) e uma balança (sustentabilidade das medidas). Se, por um lado, é necessário aumentar os investimentos em políticas ambientais para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa e mitigar os impactos das mudanças climáticas, por outro, é importante manter as dívidas públicas sob controlo (que subiram bastante após a crise financeira global de 2007-2010 e a pandemia da Covid-19) para garantir a estabilidade e evitar crises financeiras e económicas futuras.

Uma abordagem para conciliar estes objetivos passa por estabelecer uma estratégia fiscal que tenha em consideração tanto a necessidade de investimentos ambientais, como a sustentabilidade da dívida pública. Isso deve envolver a implementação de políticas fiscais que incentivem a transição para uma economia mais verde, como a taxação de carbono e a implementação de incentivos para energias renováveis. Ao mesmo tempo, é importante garantir que estas políticas sejam financeiramente sustentáveis e não sobrecarreguem demais as finanças públicas.

Depois, é também essencial realizar uma análise cuidadosa dos custos e benefícios das políticas ambientais, de forma a garantir que os investimentos promovem uma sociedade mais justa e equitativa. Para isso, deve-se avaliar o impacto das políticas ambientais sobre o crescimento económico, o emprego e a distribuição de rendimentos.

As limitações da política fiscal na luta contra as alterações climáticas são significativas, mas não insuperáveis. Com uma abordagem prudente e equilibrada, é possível conciliar os objetivos de redução das emissões de gases com efeito de estufa e o controlo da dívida pública, garantindo a estabilidade da balança, i.e., a sustentabilidade económica e ambiental a longo prazo.

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