Eduardo Teixeira, Economista e deputado do Chega à Assembleia da República

Aposta na ferrovia

A discrepância na ferrovia entre os dois países ibéricos é gritante, e agudiza a nossa condição periférica. Portugal não pode abandonar o desafio da rede europeia de alta velocidade.

Portugal precisa de conceber uma estratégia de transportes a longo prazo, que aprofunde a aposta numa ferrovia rápida, que melhore as ligações internas e internacionais e reforce a competitividade do nosso território. Mas, na verdade, a CP – Comboios de Portugal, a única empresa que opera em Portugal, é 100% detida pelo Estado, mas continua a registar e a liderar as reclamações nos transportes, essencialmente por queixas dos utentes sobre atrasos e supressões frequentes de comboios.

Foram quase cinco mil reclamações no primeiro semestre do ano passado, ou seja, 27 por dia, apesar de uma quebra considerável no número de passageiros. É um número assustador e que coloca a companhia na liderança das queixas nos transportes em Portugal. Nada de novo, ainda assim, já que há muito que se generalizou a contestação popular face à notória degradação dos serviços, que reflete uma gigantesca falta de meios técnicos e humanos.

A política de transporte ferroviário nacional é um dos exemplos de que Portugal não é bom a planear no longo prazo. Pior, não consegue executar, apesar dos apoios comunitários de que dispõe. Nas últimas duas décadas, com constantes avanços e recuos, temos ouvido falar na introdução do comboio de alta velocidade na Península Ibérica, e no privilegiar das três conexões entre Portugal e Espanha, essencialmente Porto-Vigo, Aveiro-Salamanca e Lisboa-Madrid.

Vinte anos depois e muitos estudos realizados, que custaram centenas de milhões de euros aos contribuintes, quase nada está materializado. Portugal marca passo e os nossos vizinhos já têm mais de três mil quilómetros de linha de alta velocidade em funcionamento, que ultrapassa França, com a maior extensão deste tipo de ligação ferroviária na Europa.

A discrepância na ferrovia entre os dois países ibéricos é gritante, e agudiza a nossa condição periférica. Portugal não pode abandonar o desafio da rede europeia de alta velocidade, que ficou “congelada” pela intervenção externa da Troika em 2012. Com o PRR, há agora uma nova oportunidade que possibilita a criação de novas ligações modernas a Espanha, com um novo plano de investimentos para a ferrovia. As suas localizações devem privilegiar, no território, a localização das populações, mas também o desenvolvimento e competitividade da nossa economia e os sectores produtivos nacionais.

Mas o certo é que nas sucessivas apresentações da Infraestruturas de Portugal (IP) e do Governo sobre o tema, têm-se feito múltiplos anúncios mas sem uma concretização definitiva sobre as futuras ligações. A próxima cimeira ibérica que se irá realizar no outono, será crucial, pois não é mais possível Portugal continuar a ver os comboios passar.

Importa, também, ter em conta a renovação da nossa frota interna. Atualmente, a CP só tem metade dos comboios a funcionar: dos 795 veículos da frota, apenas 374 estão ao serviço regular da população. A idade da frota é outro dos constrangimentos da companhia, apesar de finalmente estarem em funcionamento as remodeladas carruagens Arco compradas em 2020 a Espanha. Para além da iminente liberalização do mercado do transporte ferroviário de passageiros, que abrirá o mercado às empresas estrangeiras.

Estes são outros “problemas” para a nossa CP, que não está preparada para um novo mercado mais competitivo, pois não soube acautelar o futuro e esta nova complexidade.

É bom que o Governo olhe para a óbvia realidade e se ponha em campo rapidamente, para nos ligar à Europa e reestruturar a CP, promovendo a sua eficiência e sustentabilidade financeira. Não pode haver mais oportunidades perdidas. Seria trágico para os transportes públicos, para os utentes, para Portugal. Quero acreditar que não, que não haverá mais atrasos para a ferrovia e para a CP.

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