André Pinotes Batista, Deputado do Grupo Parlamentar do PS

Angola é minha

É necessário zelar pela melhoria das relações bilaterais entre Portugal e Angola. O radicalismo não paga dívidas e raramente acarreta paz ou prosperidade.

A leitura da vasta maioria da opinião publicada sobre Angola consubstancia, invariavelmente, um paupérrimo exercício de maniqueísmo pós-colonialista e pouco provido de razão ou conhecimento. Por terras da ocidental praia Lusitana, a bravata do komentariado decorre tanto na liça histórica quanto ideológica, mas, fundamentalmente, na dicotomia empobrecedora entre o servilismo económico acéfalo e um neo-ativismo bacoco.

Será possível, particularmente na vertigem do ocaso de nefastos 38 longos anos de oligarquia proto-militar de José Eduardo “Van Dunen” dos Santos, emergida de uma guerra civil, cuja génese é em parte fruto de um processo de descolonização tão inevitável quanto desordenado, emitir desassombrada opinião sobre as eleições angolanas, que ora se realizam, e as suas não menos relevantes implicações nas, cada vez mais sensíveis, relações diplomáticas entre as nossas pátrias? Julgo que sim. Com clareza, todavia não agradando a ninguém.

Consciente de que a moderação política se encontra hoje em manifesta crise, é possível acreditarmos – como creio – que é tão justa a luta dos cidadãos angolanos por um país mais igualitário, transparente e livre, personificada até ao limite da dignidade humana pelo imenso Luaty Beirão, quanto é necessário zelar pela melhoria das relações bilaterais entre Portugal e Angola. Afinal, o radicalismo não paga dívidas e raramente acarreta paz ou prosperidade.

O facto de Portugal e Angola terem sido assoladas, desfasadamente, por uma crise de dívida soberana e um choque petrolífero, respetivamente, empurrou os investidores da lusofonia para um cínico baloiço de escapes e oportunidades que, por fim, se revelou desastroso em ambos os continentes. É deste facto cabal demonstração as bruscas oscilações registadas, segundo a Câmara de Comércio e Indústria Portugal-Angola, no saldo da balança comercial bilateral, materializadas na queda do ranking das exportações de Portugal para Angola, da 4ª para a 8ª posição, a braços com a crise de confiança gerada com rígida mobilidade das divisas investidas e ali geradas. Tendência essa que, feliz e paulatinamente, tem vindo a ser contrariada, em 2017, curiosamente, pelo reforço do contributo dos setores não petrolíferos ainda dominantes.

Neste quadro, recordando com saudade os mergulhos dados no Bengo e as manhãs de cacimbo que ali experienciei a leitura do insuspeito testemunho de Luaty, sobre o decurso do escrutínio eleitoral, alimentou-me a esperança que a decisão dos 9.300.000 eleitores angolanos possa desaguar no fim de uma pouco salutar hegemonia do MPLA, nomeadamente, naquilo que concerne à excessiva capacidade de transformação constitucional, nas inauditas peças legislativas que visam perpetuar os cargos das chefias militares, que, entre outras, têm vindo a limitar as liberdades e garantias deste povo.

Se por um lado a lusofonia não se esgota num punhado de dólares ou em proclamações ocas para português ler, por outro as relações económicas entre os nossos países são demasiado relevantes para serem menorizadas.

Enquanto Deputado à Assembleia da República continuarei a repudiar, na justa medida, qualquer ataque aos direitos humanos, bem como a ser incondescendente com a intromissão excessiva e paternalista na autodeterminação dos povos.

Afinal de contas, é possível ser idealista, justo e pragmático. As lógicas de absoluto preto e branco, são apenas más heranças que em Luanda deixámos e que em Lisboa queremos perpetuar.

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