No momento em que escrevo este texto estou a milhares de metros de altitude, dentro de um avião que tem tanto de fascinante como de atemorizador – sim, faço parte daquele conjunto de pessoas para quem andar de avião é um suplício. Esta declaração de contexto serve para antecipar alguma irritação mais presente do que noutros momentos mais próximos da Terra.
Estou ladeada por duas adolescentes entretidas com selfies mais ou menos divertidas e na fila atrás de três mulheres portuguesas em pleno estado de nervos. Audível. Muito audível. Os argumentos que aquelas três pessoas decidiram trocar num voo de quatro longas horas passaram a ser do conhecimento dos mais de 200 passageiros, sem que algum tenha solicitado aquele espetáculo deprimente.
O móbil da conversa destrambelhada era a decisão do Governo em transferir aquilo que o trio descreveu como “os 125 euros que o Costa deu ao povo”.
O que percebi sobre a discussão? Nada. Então porquê escrever sobre ela? Primeiro, porque tinha de fazer algo que me desviasse do pânico de poder vir a falecer naquele avião, e, depois, para não ter um ataque tão colérico quanto o trio maravilha à minha frente.
Um cenário tudo em tudo assustador e absurdo. Se não fosse tão irritante, facilmente se tornaria num sketch modo Monty Python ou isto é gozar com quem trabalha (literalmente).
Tolhida pela turbulência, lá me fixei novamente nas três figuras enfurecidas, que repetidamente se acusavam de “falta de caráter”, de “más pessoas”, de “egoístas”, de “só ouvirem o que lhes interessa”, de “não estarem bem da cabeça”, de “só quererem o mal dos outros” ou de se “sentirem felizes com o mal alheio”.
E pensei: estarei a perceber bem, ou grande parte dos passageiros não pediu silêncio porque se estava a rever naquela exaltação inapropriada que teria, certamente, na base debilidades de saúde mental? Talvez. E talvez eu própria estivesse com vontade de gritar por calma, de suplicar por bom senso, ou de entrar na discussão acéfala e destilar todas as angústias que a pandemia, a(s) guerra(s) e a inflação me estão igualmente a causar.
Pouco ou nada interessariam os argumentos, as mensagens e o tom dos discursos, mas sim o apelo pelo grotesco que me assalta tantas vezes quantas àquelas três mulheres enfurecidas à minha frente assaltará. A diferença é que discuto arduamente comigo. Post scriptum: com muitos palavrões à mistura.
Estaremos a enlouquecer coletivamente? Como se pode fazer este diagnóstico? Quem nos pode ajudar quando a pandemia da ansiedade – e de outras doenças mentais – se espalhou sem quaisquer bloqueios ou confinamentos? Há formas de cura? Vacinas ou algo assim? Estaremos a perder a capacidade de, sei lá, sorrir? De dar e receber afetos? De amar? Ou será mesmo suposto aceitarmos a ideia Ex Machina e, numa espécie de robótica humana generalizada, passarmos alegremente a assistir ao fim da espécie?
Eu não quero acreditar. Por isso, senhores/as governantes, senhores/as PSI20 da vida, senhores/as banqueiros (mais ou menos arguidos), quando fustigarem o povo com mensagens de “produção e aperto precisam-se”, talvez fossem mais eficazes se multiplicassem as mensagens – vertidas em política – “amor precisa-se”. Sim, hoje mais do que outrora da nossa história recente.