Estive há dias a almoçar com um amigo e, depois das habituais perguntas do “que tens feito”, fomos rapidamente para a do “e, então, já decidiste em quem vais votar?”. Ele ainda não sabia em quem votar. Os dois partidos no poder não lhe oferecem qualquer esperança. Não fizeram as reformas do Estado que eram necessárias e as que fizeram não deviam ter sido feitas assim. Os líderes carecem de força política para reformar o Estado. Passos Coelho tropeça no salário que recebia por trabalho privado e ignorou as dívidas à Segurança Social. Não tem ética política. O vice-primeiro-ministro, tal como o primeiro-ministro, é um produto da juventude social-democrata dos anos 80. E todos sabemos como chegou onde chegou. Emergiu e submergiu nas agitadas ondas da política e, pelo meio, sujou-se. Fomos então ao líder da Oposição. Aí o meu amigo riu-se: “Esse é igual ao Sócrates! Até moraram na mesma rua, não foi? Conhecem os negócios uns dos outros! E estas notícias de agora? Costa ganhou quase duas vezes num programa semanal da SIC Notícias e a escrever crónicas para o Correio da Manhã do que como presidente da Câmara de Lisboa? E só pagava 1100 euros de renda por um apartamento na Avenida da Liberdade? Num prédio que pertence aos acionistas do BPI? Um prédio de traça antiga, mas que teve obras de ampliação numa cobertura quando Costa já era presidente da Câmara de Lisboa? Estão a gozar comigo?”. Ainda se juntaram outros argumentos, nomeadamente a forma como Costa apeou António José Seguro da liderança do PS e a ambição desmedida de um histórico do PS – “Histórico sou eu! Que sou do PS desde os 14 anos!”, lembramo-nos dessas palavras de António Costa.
Seguimos então mais para a esquerda. Sobre Rui Tavares, com o qual eu próprio cheguei a participar na aventura de fundar um novo partido, seguiu-se a desilusão: “Ele só tem um número de telefone na sua agenda. E é precisamente o de António Costa”, concordámos. O BE não o atrai e não era desta que sentia ainda vontade de votar nos comunistas. Havia, por fim, Marinho Pinto. Ambos concordamos que a sua entrada no MPT fora uma coisa boa, pois permitira ao partido fundado por Gonçalo Ribeiro Telles em 1993 subisse dos 0,7 por cento para os 7 por cento. “Sim, Marinho Pinto conseguiu isso, mas olha que não teria tido a mesma votação se, por exemplo, tivesse ido por um partido de extrema-direita como o PNR ou de extrema-esquerda como o MRPP”, opinou o meu amigo. Agora, com a saída de Marinho Pinto do MPT, isso também fora bom para o partido, pois Marinho Pinto revelara ser um homem de ambição desmedida, incapaz de aceitar a democracia interna e, por isso, teve de criar um partido unipessoal. O MPT poderia recomeçar, apresentar-se como o partido que não se vendeu a Marinho Pinto. Um partido de centro, sem radicalismos de direita ou esquerda, preocupado com o de cima e o de baixo, e que conseguisse trazer para a política gente boa, sensata e independente. “Há por aí muitos movimentos. Isto já parece o PREC. Mas, o MPT podia, por exemplo, arranjar um gajo liberal do Porto, como o Sá Carneiro. Sem a tralha do PSD/CDS e PS, que anda gasta e cansada. Se esse tipo aparecer, não creio que o deitem abaixo de um avião, mas é bem capaz de apanhar um tiro!”. O almoço terminou. Contudo, cada um de nós ficou a pensar que, mesmo assim, é preferível arriscar apanhar um tiro a deixarmo-nos abater pelo marasmo político. Ficámos de almoçar novamente em breve.
Frederico Duarte Carvalho
Jornalista e escritor