Agricultores europeus temem concorrência australiana

Bovinos, ovinos, caprinos, leite e arroz serão os produtos mais penalizados. As associações do setor aguardam as medidas de salvaguarda e as regras de produção.

Agricultores europeus temem concorrência australiana
epa12845106 Australian Prime Minister Anthony Albanese (R) and President of the European Commission Ursula von der Leyen (L) speak to the media during a press conference at Parliament House in Canberra, Australia, March 24, 2026. EPA/LUKAS COCH AUSTRALIA AND NEW ZEALAND OUT

A União Europeia (UE) e a Austrália assinaram um acordo de livre comércio eliminando cerca de mil milhões de euros em tarifas sobre exportações europeias e podendo aumentar as vendas da UE para a Austrália em 30%. Já a Austrália, segundo a Reuters, estima que o acordo acrescentará anualmente nove mil milhões de euros à sua economia.

Todos os produtos exportados pela UE, incluindo vinhos, chocolate, produtos de pastelaria, gelados, frutas, legumes, sumos e queijos (com mais de três anos), terão tarifas reduzidas a zero, exceto alguns produtos específicos. A UE também eliminará tarifas sobre produtos agrícolas australianos como vinho, nozes, frutas, vegetais, mel, azeite, laticínios, trigo, cevada e marisco. Produtos sensíveis como carne bovina e ovina, açúcar, arroz e certos laticínios terão quotas e reduções graduais: 30.600 toneladas de carne bovina, 55% sem tarifas e 45% a 7,5%; 25.000 toneladas de carne ovina/caprina (4% do consumo europeu); 35.000 toneladas de açúcar (0,3% do consumo). Queijos europeus terão liberalização total em três anos. A estes valores somam-se os já negociados com o acordo do Mercosul, que engloba Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.

A Copa-Cogeca, que representa os agricultores e as cooperativas agrícolas na União Europeia, já reagiu em comunicado acusando Bruxelas de colocar a agricultura como “moeda de troca” para alcançar objetivos políticos e comerciais mais amplos. A organização manifesta forte oposição às concessões feitas em produtos sensíveis, considerando-as “inaceitáveis” por não protegerem os agricultores europeus.

Esta entidade diz ainda que o acordo surge num momento delicado para o setor. “Os agricultores europeus enfrentam um aumento generalizado dos custos de produção, pressões inflacionistas persistentes e preços à produção que não acompanham essas subidas. A organização critica ainda os mecanismos de salvaguarda propostos pela Comissão Europeia, considerando-os insuficientes, e de difícil aplicação em situações de crise.

À espera de reciprocidade

Quanto a Portugal, a Confagri mantém o mesmo princípio orientador para qualquer acordo comercial com novos blocos económicos, “a obrigatoriedade de reciprocidade nas regras legais de produção e a garantia que criamos um espaço de concorrência leal sem distorção do mercado que prejudique os produtores nacionais”, diz Nuno Serra, secretário-geral da Confagri.

No caso específico do acordo com a Austrália, afirma que falta muita informação formal, seja sobre as cláusulas de salvaguarda, seja sobre a reciprocidade nas regras de produção. Contudo, “consideramos inaceitável que o setor agroalimentar seja mais uma vez a moeda de troca para acordos comerciais e políticos, sem que exista uma verdadeira garantia de que a Europa está a salvaguardar a sua segurança alimentar”.

Para Nuno Serra é preocupante assistirmos à assinatura de acordos comerciais sem que sejam apresentados estudos de impacto nas economias de cada estado membro. “Á data de hoje já devia haver um estudo sobre o impacto deste acordo na economia nacional. Só assim poderemos aferir e avaliar quais os seus efeitos nas empresas e famílias portuguesas”.

Luís Mira, secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) refere que além dos bovinos se deve manifestar cautela quanto aos ovinos, caprinos e arroz. Salienta que este acordo também terá medidas de salvaguarda. “Deverá sair um regulamento, à semelhança do que aconteceu com o acordo do Mercosul, mas “ainda não se sabe de nada”, garante. O responsável da CAP diz ainda que para Portugal, a Austrália está na 36.ª posição em termos de destinos de exportações e 51.ªno ranking de fornecedores.

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