O Acordo de Belfast, ou de Sexta-feira Santa, efetivamente pôs fim aos problemas entre as duas Irlandas, que duravam há pelo menos três décadas, e estabeleceu um consenso entre comunidades em torno da paz e do futuro da ilha.
A partir do final dos anos 1960, a Irlanda do Norte mergulhou num conflito brutal entre republicanos que queriam que a província se tornasse parte de uma Irlanda unida e unionistas que queriam que permanecesse dentro do Reino Unido. Os republicanos e a comunidade nacionalista em geral são na sua maioria católicos, enquanto os unionistas são de maioria protestantes.
A violência foi enorme, com grupos paramilitares de ambos os lados, como o IRA e o UVF, com as forças de segurança britânicas a serem lestos a puxarem das armas, tudo depois do verão de 1969. Das 3.532 pessoas que morreram, a maioria eram civis, muitos dos quais foram mortos em ataques de represália.
Durante a maior parte desse período de 30 anos, a Irlanda do Norte esteve sob o domínio direto de Westminster, o Parlamento do Reino Unido. Após anos de negociações fracassadas e discussões que não levavam a lado nenhum, algum progresso foi feito lentamente na década de 1990.
O diálogo entre o líder do Partido Social-Democrata e Trabalhista (SDLP), John Hume e o líder do Sinn Fein, Gerry Adams, seguiu na direção ao consenso em toda a comunidade nacionalista, enquanto o cessar-fogo anunciado pelo IRA e seus partidários em 1994 ajudou a moldar a paz.
O presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, demonstrou grande interesse pela Irlanda do Norte e enviou um negociador especial, George Mitchell, que acabaria presidindo as negociações entre os partidos e grupos envolvidos.
A situação acelerou depois de os trabalhistas chegaram ao poder na Grã-Bretanha em 1997. Tony Blair percebeu a necessidade de incluir o Sinn Fein no processo, embora o DUP (partido unionista normalmente aliado dos conservadores) tenha protestado contra essa inclusão. Atualmente, e depois das últimas eleições, em maio do ano passado, o Sinn Fein é o partido mais votado na Irlanda do Norte
As negociações começaram em setembro de 1997 e, em janeiro de 1998, o secretário da Irlanda do Norte, Mo Mowlam, fez uma visita sem precedentes à prisão de Maze para pedir o apoio de partidários que foram presos por atividades paramilitares. Da mesma forma, como ala política do IRA, o Sinn Fein era responsável por garantir o apoio dos prisioneiros republicanos.
Nos últimos dias, tanto Blair quanto o primeiro-ministro irlandês Bertie Ahern foram a Belfast para participar nas negociações e o acordo acabou por ser anunciado por Mitchell na tarde de 10 de abril de 1998.
O acordo foi formalmente feito entre os governos britânico e irlandês e oito partidos políticos da Irlanda do Norte, incluindo o Sinn Fein, o Ulster Unionist Party, o SDLP e o Alliance Party. O DUP foi o único grande grupo político a opor-se. Já na altura, era um dos lados do problema, como ainda hoje: tem feito tudo para impedir o Sinn Fein de governar.
O acordo reconheceu o estatuto constitucional da Irlanda do Norte como parte do Reino Unido, refletindo o desejo da maioria dos cidadãos. Mas também estabeleceu um princípio de consentimento: que uma Irlanda unida poderia acontecer se e quando a maioria das pessoas na República da Irlanda e na Irlanda do Norte quisessem.
Os governos britânico e irlandês concordaram em realizar referendos conjuntos em 22 de maio de 1998. O referendo na Irlanda do Norte foi sobre a aceitação do próprio Acordo da Sexta-Feira Santa e 71% das pessoas votaram ‘sim’. O referendo na República da Irlanda foi para alterar a Constituição do país, que passava a renunciar à reivindicação sobre a Irlanda do Norte. Um esmagador 94% votou a favor.
Ao longo da primeira década do milénio. o DUP e o Sinn Fein ultrapassaram o UUP e o SDLP como os principais partidos unionista e nacionalista. O Acordo de Santo André, de 2006, preparou o caminho para que os dois principais partidos partilhassem o poder juntos.
Até que de repente os britânicos votaram favoravelmente o Brexit e tudo voltou a complicar-se: a fronteira entre as duas Irlandas – que na prática havia deixado de existir, passava a ser de facto uma fronteira – agora entre o Reino Unido e a União Europeia. O Protocolo da Irlanda do Norte teve a vida difícil que é conhecida: todos os envolvidos sabiam que era impossível de colocar no terreno e que poderia fazer regressar a violência entre as duas Irlandas. O último acordo, que tem semanas, parece ser um pouco mais sensato: talvez a paz ainda venha a ser salva.