Nestes dias, fui, mais uma vez, à reunião de pais e encarregados de educação com a diretora de turma do meu filho. Mesmo tantos anos passados, depois de muitas, mesmo muitas, reuniões, continuo a ser surpreendida. Como diria Forrest Gump, “life is like a box of chocolates. You never know what you’re gonna get”. Passa-se quase o mesmo com as reuniões de pais. Quase, porque algumas atitudes acabam por ser sempre as mesmas, constantes, que nos fazem suspirar. Nestas situações, fico sem saber se os pais queriam mesmo estar no lugar dos filhos e ainda frequentar a escola ou se escondem o desejo secreto de um dia serem professores, ou as duas coisas.
Há mães e pais que vivem tudo o que se passa na sala de aula como se fossem colegas de carteira dos filhos, ou professores, ou avaliadores. “O exercício de matemática que foi feito no quadro estava mal corrigido”, garante uma mãe nervosa; “a revolução francesa foi dada em pouco tempo e, assim, não conseguimos acompanhar”, queixa-se um pai empenhado; “as reflexões deslizantes como isometrias não deviam de ter saído no teste”, exalta-se outro pai; “o nível trófico teve poucos exercícios”, discute outra mãe ainda. Uff! que cansaço. Não deve ser fácil viver duas vidas em simultâneo. É coisa para alter ego de super-herói, como Batman e Bruce Wayne ou Super-Homem e Clark Kent.
A verdade é que confio nos professores e quero e espero que cumpram a sua missão. Ao longo dos anos, tenho encontrado “grandes” professores, excelentes profissionais, com uma entrega gigante aos “seus” meninos, apesar das adversidades. E também já me cruzei com o oposto: gente cuja vocação não é, de todo, ensinar e preparar alunos, seja para a escola, seja para a vida. Estes são, felizmente, uma minoria. Mas é como em todas as profissões: bom, mau, assim-assim. Encontra-se de tudo.
Não fiquem com a ideia errada: é claro que os pais têm e devem acompanhar os filhos na escola, porque só assim o trinómio aluno/professores/pais resulta positivamente. Mas, caramba, uma coisa é acompanhar, outra é sufocar, não deixar que eles cresçam e que aprendam uma coisa muito simples: todas as nossas ações têm consequências. Se não fazem os TPC, se não se preparam para os testes, se não cumprem as regras básicas na sala de aula, sofrerão, mais tarde ou mais cedo, as consequências. Sempre assim foi e sempre assim será. E quanto mais cedo as nossas crianças perceberem isto, melhor. Se queremos ter jovens responsáveis há que responsabilizá-los desde cedo. Ou podemos fazer como a Clémentine de Boris Vian, no “Arranca-corações”, e prendemo-los em gaiolas, com sapatos de chumbo, para não voarem.
Nota biográfica: Maria Calvet (n. 1976, Lisboa) é filha de mãe francesa e pai português, fruto de uma relação nascida de uma pós-graduação na Sorbonne. É supermulher por convicção e contadora de histórias por terapia. Por se rever num pensamento de mestre Da Vinci, fez dele mote de vida: “Tal como o ferro enferruja com o desuso e a água estagnada apodrece ou gela quando esfria”, também o nosso “intelecto perde” a não ser que lhe demos uso.