Bernardo Matos Pinho, Membro Direção da Associação Portuguesa de Projetistas e Consultores (APPC)

A urgência de um Blue Deal para a Europa

A criação de um Blue Deal autónomo e a sua implementação eficaz com a liderança da engenharia são cruciais para enfrentar os desafios hídricos da Europa.

No encontro anual da EFCA (European Federation of Engineering Consultancy Associations), realizado recentemente em Madrid, foi debatido um tema de vital importância: o desafio lançado pelo Comité Económico e Social Europeu (CESE) para a criação de um Blue Deal, com a atribuição de um Comissário Europeu específico para esta iniciativa.

O Blue Deal é uma proposta centrada na gestão sustentável e na preservação dos recursos hídricos da Europa. Inspirado no Green Deal da União Europeia, que abrange políticas para atingir a neutralidade climática, o Blue Deal focar-se-ia especificamente em questões relacionadas à água. Isso inclui a conservação dos recursos hídricos, a melhoria da infraestrutura de abastecimento de água e saneamento, a promoção de uma economia circular da água e a adaptação das infraestruturas aos impactos das mudanças climáticas.

A autonomia do Blue Deal em relação ao Green Deal é fundamental devido à sua criticidade e urgência. Enquanto o Green Deal abrange uma ampla gama de iniciativas ambientais, o Blue Deal focar-se-ia especificamente na gestão e preservação dos recursos hídricos, essenciais não só para a sobrevivência humana, mas também para o funcionamento das indústrias e a produção de energia. Este enfoque dedicado permitiria uma implementação mais rápida e eficaz das políticas necessárias para enfrentar os desafios hídricos da Europa.

A EFCA destaca a engenharia como um setor crucial para estudar e implementar o Blue Deal. A complexidade das infraestruturas hídricas e a necessidade de inovações tecnológicas exigem a expertise técnica e a abordagem científica que os engenheiros podem oferecer. Desde a manutenção de infraestruturas de abastecimento de água envelhecidas até ao desenvolvimento de fontes de energia renováveis baseadas na água, a engenharia desempenha um papel insubstituível na materialização deste ambicioso plano.

A EFCA apoia uma abordagem coordenada à escala da UE para a política da água, incluindo a criação de um Fundo de Transição Azul. A interligação entre energia, água e matérias-primas essenciais torna a água um elemento central da estratégia industrial da UE. O Blue Deal deve ser tratado no contexto global das políticas ambientais e climáticas, com o Comissário Europeu para o Ambiente na liderança e um vice-presidente a coordenar o grupo relevante de Comissários.

Esta estrutura garantirá, assim, uma abordagem integrada e eficaz. Além do direito humano à água limpa e potável, o Blue Deal deve abordar as adaptações climáticas necessárias para as infraestruturas hídricas, incluindo zonas costeiras, rios e bacias hidrográficas. A gestão sustentável dessas áreas é vital para enfrentar os desafios das mudanças climáticas.

A manutenção urgente de infraestruturas de abastecimento de água envelhecidas e com fugas, bem como de infraestruturas de águas residuais, é essencial. Estes problemas, comuns em todos os Estados-Membros, exacerbam a escassez de água potável e aumentam os custos associados. O Blue Deal deve acelerar o desenvolvimento de fontes de energia renováveis baseadas na água, garantindo que sua expansão seja viável e aceite pela população.

Soluções inovadoras e sustentáveis são necessárias para tornar essas fontes de energia uma realidade prática. A EFCA apoia a ênfase do CESE numa economia circular da água, que promoverá o uso eficiente e sustentável dos recursos hídricos. O Blue Deal deve ser um compromisso político do novo mandato de 2024-2029. Este compromisso garantirá a continuidade e a implementação eficaz das políticas necessárias para enfrentar os desafios hídricos da Europa.

Quanto mais cedo se iniciarem os planos de investimento no Blue Deal, menor será o custo futuro. O agravamento das condições hídricas apenas aumentará os custos de resolução no futuro. Investir agora é não apenas uma decisão econômica inteligente, mas também uma necessidade ética para garantir a sustentabilidade dos recursos hídricos para as gerações futuras.

A criação de um Blue Deal autónomo e a sua implementação eficaz com a liderança da engenharia são cruciais para enfrentar os desafios hídricos da Europa. A EFCA e o CESE têm razão em destacar a urgência e a importância desta iniciativa. Agora, cabe aos líderes políticos europeus assumir este compromisso e garantir que o Blue Deal se torne uma realidade, promovendo a sustentabilidade e a resiliência dos recursos hídricos da Europa.

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