Nem sempre se consegue, mas é desses actos de contrição que nasce uma boa parte da solidariedade, onde Portugal é definitivamente bom. Mas será isto o melhor que conseguimos? Uma união e sentido de entreajuda fantásticos apenas em situações extraordinárias e depois dos factos consumados? Será isto o melhor que conseguimos fazer para honrar a memória das vítimas do presente, mas especialmente do futuro?
Porque com o actual status quo é muito provável que outras tragédias evitáveis, no número e na dimensão, venham a ocorrer, sem que algo seja feito para as impedir, pelo menos não em tempo útil. Objectivamente, o risco é omnipresente a tudo o que fazemos, é a sua gestão que dita o desfecho dos acontecimentos, nem sempre é possível evitar tragédias, mas tem que se trabalhar sempre nesse sentido e no de mitigar a sua dimensão quanto tal não é possível.
Ora, sem a devida responsabilização a gestão do risco não passa de letras num qualquer papel. É aqui que Portugal “peca”. Não temos uma cultura séria de responsabilização e optamos antes pela aceitação dos diversos bodes expiatórios que nos colocam à frente para desviar as atenções do fundamental.
Carne para canhão, que na generalidade são intangíveis ou os elementos usualmente sem voz no assunto, no caso de Pedrogão o SIRESP, um sistema sem responsáveis directos ou com vários, e os dois GNR´s, que com apenas uma viatura e sem informação deveriam ter evitado o desconhecido.
Disse o Presidente da República, “é tempo de apurar tudo sem limites nem medos”, ao estilo de “desta vez é que tem que ser ”, quando o apuramento de factos deveria ser apenas uma trivialidade.
Mas apesar da boa vontade de Marcelo, a realidade crua e dura é que o apuramento dos factos, mesmo que ocorram, de nada valem sem a respectiva responsabilização. De novo, é aqui que somos imperfeitos e desta imperfeição nasce o espaço para uma gestão de risco ineficaz, que por sua vez dá azo a mais tragédias, seja em número e/ou em dimensão.
Os dados são inequívocos, já existiram 66 comissões parlamentares de inquérito, os factos concretos apurados foram inúmeros, contudo a responsabilização foi estéril, tanto política como criminal. É por isso, que apesar de concordar em absoluto com a ideia de Nuno Garoupa, sobre uma comissão independente, estou absolutamente céptico quanto à sua efectivação ou eficácia.
A responsabilização só chegará com a pressão dos cidadãos perante a classe política, que habilmente criou um muro de protecção contra isso mesmo, onde o Parlamento é um órgão de sentido único, de dentro para fora, com uma pequena e obsoleta janela de seu nome, “correio do cidadão”, uma versão arcaica de um email, sem dar sequer acesso directo ao deputado eleito pela localidade do cidadão que o pretende contactar.
Mas há formas de contornar esse muro, nomeadamente nas plataformas sociais, como o Facebook ou Twitter. O primeiro passo é o pensamento próprio, não beber do sumo envenenado dos inúmeros grupos de claques, que apenas servem para defender o indefensável da sua cor politica e atacar os adversários, sem qualquer intenção de debater os factos.
Façam ouvir a vossa opinião nas páginas oficiais ou pessoais, dos parlamentares, partidos políticos e representantes políticos da vossa região. Façam sentir aos meios de comunicação social que o cidadão apoia a investigação, o debate dos factos e a responsabilização da classe política. Por muito que se queira editorialmente, não é sustentável apostar em programas de cidadania e de investigação se depois pouca audiência têm, ao mesmo tempo que o entretenimento “vazio” é popular.
Em suma, devemos ser solidários mas por antecipação, não nos deixar atordoar pelo bálsamo da solidariedade póstuma, há que exigir a responsabilização dos intervenientes nas falhas, seja qual for a sua cor politica. De nada vale a quem já não está entre nós a onda de solidariedade que se gerou, e de pouco valeu o evento que juntou todas as televisões e rádios nacionais, para angariar um pouco mais de um milhão de euros, sendo que na duração do mesmo o Estado pagou o dobro desse valor só em juros da dívida pública.
Há que investir no que é realmente importante, a prevenção, ou será, por exemplo, apenas uma questão de tempo até teremos em mãos uma tragédia devido aos drones nos aeroportos ou uma derrocada dos sistemas críticos da infraestrutura do país devido a ataques cibernéticos.