Há uma peça de teatro, numa sala do West End londrino, que está em cartaz há 62 anos. Estreou no ‘Ambassador Theatre’ e logo depois foi para o ‘St. Martin’s’, que é quase paredes meias com o primeiro. Trata-se da representação dramática há mais tempo em cena, sem interrupções. De tal modo, que o ‘St. Martin’s Theatre’ já ganhou como alcunha o nome da peça.
Foi a 25 de Novembro – data emblemática – de 1952 que ‘A Ratoeira’, do punho sempre matreiro e intrigante de Agatha Christie, se apresentou ao público. Chamar-lhe ‘livro’ é excessivo, já que após todos estes anos o texto continua sem ser editado, por vontade expressa do retorcido cérebro da autora. Mrs. Christie aduziu a essa parte do seu testamento em vida que a peça só passaria aos escaparates das livrarias quando deixasse de estar em cena – facto ainda não ocorrido.
A razão é clara – Agatha quis que o “grand finale” permanecesse em algum sigilo, tanto quanto é possível em actuações que quase sempre têm a sala esgotada. Mas – e aí está o remate do truque – no final do derradeiro acto de cada representação é pedido aos espectadores que não revelem o desenlace fora das portas do ‘St. Martin’s’. Assim, a curiosidade de quem nunca viu mantém-se, e no caso dos que já assistiram apela-se para o prazer da releitura ou ao vício do “voyeur”.
Em tudo isto, fica sem se saber se quem cai na ‘ratoeira’ é o criminoso enfim descoberto se o público que segue há tanto tempo aquela espécie melhorada de novela das oito, num teatro cuja ponte mais próxima sobre o Tamisa se chama ‘Bridge Cage Walk’.
No tempo presente, é mais difícil manter o sigilo. O interesse do público é amiúde desviado entre novelas consecutivas, embora algumas se mantenham anos em cartaz. Mas normalmente defraudam a assistência no fim, porque as mais das vezes a montanha pariu um rato. A lógica de ‘show business’ pede, por isso mesmo, novelas novas todas as semanas. A repetição parece menos óbvia se houver outros protagonistas, mesmo se a história é recorrente – trata-se da caça ao bandido, que mantém a esperança de quem vive perdido entre a impotência, o trabalho árduo, o fraco salário e as ratoeiras da existência normal.
A esperança pode também ser servida noutro capítulo do telejornal – ou da novela, para o caso tanto faz. Falo dos novos partidos. Cansado dos mesmos ‘bandidos’, essa inconcreta treta a que chamamos público precisa de novidades – e as notícias prescrevem mais cedo do que alguns processos judiciais. Assim nasce o ‘Podemos’ espanhol, com reminiscências semânticas no ‘Yes We Can’ de Barack Obama, mas com indumentária ideográfica tão diversa do ‘slogan’ de campanha presidencial como a que afasta uma transmissão do ‘Super Bowl’ com pipocas de uma noite de “Indignados” na ‘Puerta del Sol’.
Fruto acabado do 3G, do iPhone e do FaceBook, o ‘Podemos’ tinha 100 mil apoiantes inscritos nas redes sociais vinte dias depois de ser concebido, por obra e graça de uma extrema-esquerda que se quer redefinida, sem saber bem como. E que tem irmãos no ‘Syriza’ grego, apesar de tudo mais politizado, ou nas facções fatiadas do Bloco de Esquerda, e dos que em fastio de lá saíram para formar o ‘Livre’ e as suas novas adjacências.
O povo acha engraçado, como em graça caiu também a “Front National” de Marine “La Fille”, que é hoje por hoje, na banda contrária aos supra-referidos, uma das maiores formações políticas de França. Mas é tudo o mesmo – o pessoal chateou-se dos velhos protagonistas, e para seguir a novela precisa de novos. O mesmo ocorre nos enredos ‘a sério’ – por vezes, mediante uma auscultação cuidada das audiências, há um personagem que morre ou muda de roteiro.
Está tudo devidamente pensado desde, pelo menos, que Nixon visitou a China. Aliás, se tiverem uma em casa, vão ver que as ratoeiras são feitas lá. Os ratos mudam, o queijo é parecido. É que se já não há espaço para o “camembert” legítimo, a verdade é que os gourmets estão cada vez mais parolos.
(Por vontade expressa do autor, este texto não segue as normas do acordo ortográfico)
Márcio Alves Candoso
Jornalista