Filipe Garcia, Economista Conselheiro; IMF, Informação de Mercados Financeiros

A próxima fase

O primeiro impacto da inflação nas economias europeias não está ainda a ser tão penalizador para os negócios. Nos Estados Unidos, a situação já está numa fase mais avançada.

Pelo que tem sido relatado pelas empresas e associações empresariais, o primeiro impacto da inflação nas economias europeias não está ainda a ser tão penalizador para os negócios. Aparentemente, tem sido possível manter as vendas, proteger e até aumentar as margens, mesmo que à custa de uma redução das quantidades. O facto de os preços já terem subido, mas de os salários ainda se manterem mais ou menos intactos num contexto de um alto nível de poupança agregada acumulada e de taxas de juro baixas ainda vai dando alguma proteção à generalidade das empresas.

Nos EUA, a situação já está numa fase mais avançada. Como costuma suceder, o mercado de trabalho ajustou mais rapidamente, nomeadamente a nível salarial, o que tem obrigado as empresas a subirem ainda mais os preços. Mas há diferenças mais visíveis: o nível de poupança acumulada pelas famílias é consideravelmente mais baixo e já se fazem sentir há mais tempo as subidas nas taxas de juro do crédito à habitação. Os juros não só começaram a subir mais cedo nos EUA, como grande parte das operações é indexada a taxas de longo prazo que são mais altas e começaram a subir ainda mais prematuramente. Daqui resulta que os consumidores já estão em dificuldades e, por inerência, as empresas.

O aviso mais recente vem dos grandes retalhistas. Há três semanas, os resultados e perspetivas da Waltmart já tinham desiludido e empurrado as cotações 20% para baixo. Agora foi a Target a cortar a previsão de margens – revista em baixa há poucas semanas – e a admitir que terá de oferecer descontos maiores para tentar escoar os stocks, que estão 43% acima dos níveis do ano passado. A empresa explica que a inflação alta está a provocar alterações nos hábitos dos consumidores que pouco estão a comprar para além de alimentos e outros bens de primeira necessidade. Empresas como a Costco, Gap e Macy’s têm dado indicações no mesmo sentido.

É algo que certamente também chegará a este lado do Atlântico.

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