Na vida temos como certo o pagamento de impostos e a morte, a que acrescentaria a fraca memória. É um facto que a mente humana é selectiva e tende muitas vezes a esquecer-se dos maus momentos. O que se está a passar em Portugal é mau demais para ser verdade. Depois de uma intervenção num país que não tinha dinheiro para pagar salários, pensões, fornecedores e investimento, vende-se a ideia de que existe um período de vacas gordas que não acaba, que tudo sustenta e que podemos voltar a hipotecar as futuras gerações, sem consequências. Que democracia e sociedade são estas em que o mérito é esquecido em detrimento dos direitos adquiridos que jamais podem ser alienados?
As progressões automáticas são um regresso ao passado onde o emprego no Estado era para a vida e onde a incompetência é premiada. É um facto que os salários em Portugal são baixos, e que uma economia não deve competir utilizando o reduzido nível de vida como arma. Mas existem limites quando o Estado já provou ser incapaz de se conter perante as clientelas, sejam elas empresas privadas, entidades relacionadas ou os próprios partidos, que através dos sindicatos manipulam trabalhadores e os números de manifestações, por exemplo, alugando autocarros com pessoas que não sabem ao que vão.
A farsa e a iliteracia têm um limite. Em algum ponto a restrição orçamental e o aumento descomunal da carga fiscal indirecta irão ditar um fim à criação de riqueza. Vivemos na ilusão do dinheiro gratuito e da energia barata quando essa não é a normalidade, mas sim a excepção. Além disso, as taxas de juro baixas são fruto também da substituição de dívida externa por interna. Sim, são os próprios portugueses que estão a comprar a nova dívida emitida todos os anos pelo Orçamento do Estado. Resumindo, a próxima crise afectará em maior proporção os agentes internos e não os externos.
A UE, com todos os seus comissários e burocracia, começa a preparar a resposta à próxima crise. O BCE, numa opinião divulgada dia 8 de Novembro (“CON/2017/47”), avisa que os depósitos que gozam da protecção de fundos de garantia devem ser substituídos por limites discricionários que cada autoridade local pode impor. Em suma, propõe-se o estudo do fim das garantias aos depósitos. Ao invés de se fomentar e acelerar a resolução dos problemas da banca, tal como o crédito malparado, a capitalização dos bancos e um sistema de garantia europeu que garanta os depósitos, pensa-se em como e quem vai pagar a próxima crise. Os consumidores e investidores, novamente eufóricos com o consumo, não se podem esquecer que todas as emissões de dívida europeia a partir de 2013 têm as famosas cláusulas “CAC”, que facilitam uma reestruturação, sem a sua autorização.
Com tanta incerteza quanto ao futuro, e depois de uma recuperação baseada na actividade dos bancos centrais, os governos não aprenderam com os erros cometidos. A factura, essa, irá chegar, desta vez sem perdão para os depósitos e para a dívida.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.