Em 1942, Franklin Roosevelt anunciou ao Congresso que os Estados Unidos iriam produzir 60 mil aviões nesse ano. Os assessores militares acharam o número excessivo. No ano seguinte, a indústria americana já o superava em seis meses. A vitória dos Aliados não se explicou apenas pela coragem dos soldados nem pela genialidade dos generais. Explicou-se também pela capacidade de substituir perdas mais depressa do que o inimigo as conseguia infligir.
Oito décadas depois, essa realidade já não existe da mesma forma. A marinha americana constrói dois a três navios de guerra por ano, enquanto a China constrói dezassete. O programa do porta-aviões Gerald R. Ford ultrapassou os 13 mil milhões de dólares por unidade e acumulou anos de atrasos. Os destroyers Zumwalt são o símbolo mais claro do problema: três construídos, nenhum plenamente operacional. E os navios caça-minas Avenger foram retirados do Barém por falta de manutenção, estando em Singapura quando o Irão começou a minar o Estreito de Ormuz. A ausência no lugar errado, no momento exato errado. O problema não é financeiro.
O orçamento de defesa americano é enorme. O problema é estrutural: décadas de desindustrialização, externalização de cadeias de fornecimento e concentração do setor em poucos grandes contratantes produziram uma máquina de defesa poderosa, mas lenta na reposição de stocks e incapaz de escalar com facilidade. Trump começou esta presidência com a intenção de reindustrializar a América. A ambição é compreensível. Mas o ponto mais frágil dos EUA não está nas fábricas de consumo, está na base industrial que sustenta as forças armadas, precisamente onde os atrasos, os estrangulamentos logísticos e a incapacidade de escalar produção já são uma vulnerabilidade estratégica.
A lição é ainda mais evidente nas munições. A produção do míssil Patriot não chega a 700 unidades por ano. Um adversário capaz de lançar drones e mísseis em massa repõe o que perde em semanas. O defensor repõe em anos. Essa assimetria não é um detalhe técnico. É uma fraqueza que nenhum orçamento, por si só, resolve.
Os mísseis pararam. As razões invocadas foram diplomáticas e estratégicas. A razão estrutural, menos discutida, é que 30 dias de conflito de intensidade média consumiram stocks que levam anos a repor. Não foi a diplomacia que impôs o ritmo. Foi a fábrica.
Para a Europa, a conclusão é incómoda. Durante anos, a sua defesa organizou-se em torno de sistemas americanos, como os Patriots, os F-35 e as munições guiadas. Fê-lo por razões compreensíveis. Mas comprou dependência ao mesmo tempo que comprava segurança. E essa dependência assenta numa base industrial sob pressão, com prioridades cada vez mais orientadas para o Indo-Pacífico.
Portugal não está fora desta equação. Se optar pelos F-35, não estará apenas a comprar um avião. Estará a entrar numa cadeia de dependência em que atrasos de produção, restrições de fornecimento e revisões de calendário podem condicionar a disponibilidade operacional durante anos. A questão não é ideológica. É estratégica. E deveria ser tratada como tal.
Roosevelt tinha razão numa coisa essencial: as guerras ganham-se nas fábricas antes de se ganharem nos campos de batalha. A questão para a Europa, e para Portugal, não é apenas quanto gastar em defesa. É onde produzir, com quem depender e se ainda se está a tempo de corrigir erros que já duram demasiado.