Nos últimos quatro anos fiz três mudanças de casa. Tive de embalar, transportar, desempacotar e arrumar mais de mil livros em cada uma dessas viagens. Durante o processo, levei a cabo uma triagem a algumas obras que acabei por oferecer a amigos e a desconhecidos que, agradecidos, acabaram depois por se tornarem amigos. Um livro é um objeto poderoso, que tanto cria amigos como atrai inimigos. Não sou adepto dos livros digitais, gosto do toque físico e, por deformação profissional, preciso do registo documental que a palavra impressa representa. Conheço a história de cada livro que entrou cá em casa. Sei a origem deles, o momento e a razão pelo qual foi comprado ou oferecido. Não os li todos, é verdade, mas consultei-os e sei do que falam. Tenho imensa pena de não ter lido atentamente a maior parte e lembro-me disso cada vez que passo na estação de metro do Saldanha – linha vermelha –, decorada com frases de Almada Negreiros, onde uma delas diz: “Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria. Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estou perdido”. Procuro ler o máximo possível, visito regularmente livrarias para ver se há uma ou outra obra que me possa interessar, surpreender. E quando não encontro o livro que queria ler, sento-me à secretária e escrevo-o. Cada vez que procuro uma casa nova para habitar, a principal preocupação é ter uma divisão para colocar o escritório com espaço suficiente para as estantes. Não tem sido fácil, no entanto quando olho para a biblioteca de Mafra ou, de uma forma mais modesta, a biblioteca de Pacheco Pereira na Marmeleira, penso que me bastava um espaço atrás da porta da casa de banho em qualquer uma das duas para os arrumar. O meu escritório não deve ser muito maior do que uma cela de prisão. E como é aqui que passo a maior parte do dia, preso a este ofício, intervalado apenas com alguns passeios para apanhar sol, não posso dar-me ao luxo de deixar entrar mais livros em casa sem que, antes disso, outros saiam primeiro. Há regras. Hoje em dia, ao contrário do tempo do fascismo, escreve-se e publica-se muito. Até eu já escrevi mais de dez livros! Por isso, o critério da escolha tem de ser mais rigoroso. Ouvi há uns tempos a informação de que o ex-primeiro-ministro José Sócrates, temporariamente retido dos seus afazeres pessoais devido a suspeitas de corrupção, recebeu cerca de 40 encomendas apenas na primeira semana de detenção. Ora, isso não é nada mau para começar uma nova biblioteca. E, entre os afazeres de higiene, refeições, visitas pessoais e visitas do advogado, mais ainda o trabalho de preparação legal, ainda assim deve ter algum tempo para ler. Sócrates pode ver televisão, mas não pode ir à ópera. A companhia de um livro é sempre um bem precioso quando se está privado da presença de um outro ser humano numa noite fria. Seja numa cela de Lisboa, seja num apartamento em Paris. Compreendo a indignação de António “pai do SNS” Arnaut por ter recebido de volta a carta e o livro que mandou desde Coimbra para Évora. Foi notícia em todo o país. Até em Lisboa. Arnaut é de um tempo em que os livros eram um bem escasso. Diz ele que nunca as prisões do fascismo recusaram a entrada de um livro enviado por si. Mas, as regras existem para bem dos detidos. Nestes tempos modernos, se não tivermos cuidado com o que deixamos entrar em casa de cada um de nós, ainda morremos enterrados em papel. Tenho tido ultimamente a oferta de livros e não os posso recusar. Não conto com a sorte de ter um guarda prisional a fazer essa triagem por mim e vai ser una chatice tremenda quando tiver de me desfazer dele. Mas, um dos últimos livros que comprei foi há quase um ano. Foi numa feira de antiguidades, onde estavam a vender livros usados. Já o tinha lido, tenho-o ainda numa cópia em PDF no computador, mas agora possuo o exemplar físico. Chama-se “Contos Proibidos – Memórias de um PS Desconhecido”, por um tal de Rui Mateus. Não sei se esse livro existe na Biblioteca de Évora.
Frederico Duarte Carvalho
jornalista e escritor