Edgar Lopes, Chief Risk Officer da Zurich Portugal

2018: um ano com riscos elevados

No que respeita a riscos económicos, importa estar atento a alguns fatores, pois o sistema financeiro continua de alguma forma insustentável e ainda há países com um endividamento elevado, como a China.

O World Economic Forum, em parceria com diversas entidades, entre as quais o Grupo Zurich, apresentou recentemente a nova edição do The Global Risks Report, um importante relatório que é desenvolvido anualmente e onde são espelhados os principais riscos ambientais, informáticos, económicos e geopolíticos para todo o ano.

O Global Risk Report de 2017 foi publicado num altura de elevada incerteza a nível global, num mundo marcado pelos descontentamentos populares que se verificavam por intensos fatores políticos e económicos. A nova edição, de 2018, demonstra que estes são riscos que têm vindo a dissipar-se com perspetivas de crescimento económico, panorama que permite aos líderes políticos lidar com sinais de extrema fraqueza em vários sistemas complexos do mundo, como na sociedade ou no ambiente.

A Humanidade no geral tem vindo a adaptar-se facilmente à rápida mudança, melhorando a forma como encara riscos convencionais, isolando-os e lidando com eles através de abordagens padrão de controlo e gestão de risco. Mas quando se pergunta aos mais de mil entrevistados quais as suas visões sobre a trajetória de riscos em 2018, 59% das repostas apontam para uma intensificação dos mesmos, principalmente nas categorias Ambiente e Cibersegurança.

Os riscos ambientais aumentaram proeminentemente nos últimos anos. Esta é uma tendência que se verifica na mais recente edição do relatório, após um ano caracterizado por violentas tempestades que assolaram diversas populações; por temperaturas extremas que desequilibram a agricultura e a produção de alimentos e pelo aumento das emissões de CO2, pela primeira vez em quatro anos. Esta última questão é de especial importância, numa altura em que 90% da população mundial, que supera os 7 mil milhões de pessoas, vive com ar poluído.

Os riscos relacionados com a Cibersegurança também cresceram. O ano de 2017 foi marcado por ataques informáticos a diversas empresas, situações que duplicaram ao longo dos últimos cinco anos, e que eram considerados raros, mas que se estão a tornar cada vez mais comuns. Estes riscos têm impactos financeiros e alguns dos maiores gastos em 2017 estão relacionados com os ataques Ransomware, responsável por 64% dos emails nocivos do ano. Os exemplos mais notáveis incluem o ataque WannaCry – que afetou 300 mil computadores em 150 países – e o NotPetya, que causou perdas trimestrais na ordem dos 300 milhões de dólares (cerca de 245 milhões de euros) às empresas afetadas.

Mas também há sinais positivos, embora tenhamos de olhar para eles com cautela. No que diz respeito a riscos económicos, tudo indica que o mundo está a recuperar de uma crise global que dura desde 2008. Mas ainda há alguns fatores a que temos de estar atentos, pois o sistema financeiro continua de alguma forma insustentável e ainda há países com um endividamento elevado, como a China.

No que à geopolítica diz respeito, há novos desafios que nos são apresentados, nomeadamente na forma como lidamos com a ineficácia dos estados na criação de mecanismos que impeçam novas crises, e no ressurgimento de políticas protecionistas, implementadas pela mão de partidos nacionalistas e populistas que ganham maior expressão em diversos países. A estes fatores juntamos ainda a intensificação da automatização e digitalização que, apesar de ter muitas vantagens na aplicação à política, traz ainda alguns riscos, nomeadamente em termos de segurança.

Por fim, este ano, o Global Risk Report apresenta três novas categorias dedicadas a potenciais ruturas (Riscos Futuros), à análise de riscos identificados no passado e da forma como foram enfrentados (Retrospetiva) e à partilha de conhecimento entre especialistas em risco, para a partilha de visões sobre as implicações da forma como se entende o risco nas empresas, governos e sociedade civil (Reavaliação do Risco).

No que diz respeito aos Riscos Futuros, é importante destacar que os riscos identificados não são previsões, mas hipóteses credíveis, construídas com base nos estudos que têm vindo a ser desenvolvidos. Riscos como o colapso dos sistemas de fornecimento de alimentos, descrédito dos sistemas políticos democráticos ou guerra. Riscos que se preveem mas que podem ser evitados, tomando conhecimento da sua possibilidade.

Olhando para todos estes aspetos, e embora possamos ver riscos em diferentes áreas, compreendemos que ainda não é tarde para moldar um amanhã mais resiliente, se reagirmos rapidamente para evitar o colapso dos diferentes sistemas. Os riscos existem, mas é a forma como os encaramos que define se acontecem ou não.

Relacionado