Redação

15 de março de 2015

Domingo passado, mal acordei, liguei a televisão e dei de caras com ruas lotadas de pessoas, a maioria vestida de verde e amarelo, com cartazes contra a corrupção e a favor de uma mudança política no Brasil. Em São Paulo, o protesto estava marcado para as 14h00 na Avenida Paulista, mas desde as 8h00, um pouco por todo o Brasil, cidadãos uniam-se em torno do movimento.
Provavelmente por ser jornalista, a vontade de sair de casa e de ver in loco o protesto foi praticamente instantânea e foi crescendo, em certa medida, na proporção em que aumentava o número de pessoas nas ruas de São Paulo. “Já são 200 mil”, anunciava a Globo News. Pouco depois já eram 240 mil, logo passou a 580 mil. Grupos de amigos no Whatsapp apitavam de cinco em cinco minutos com estimativas de participantes, até que o gigantesco 1 milhão foi anunciado. “Um-milhão-de-pessoas-na-Paulista?”, eu tinha que estar lá!
Parecia que tinha recuado alguns meses e estava em plena Copa do Mundo e que o Brasil tinha sido campeão mundial. As ruas circundantes à manifestação estavam repletas de pessoas, pessoas de todos os géneros, idades e cores. Jovens, idosos, crianças, chineses, negros, brancos, deficientes físicos, judeus, havia de tudo. Ninguém me contou, eu vi.
Além do impulso jornalístico, grande culpado da minha saída de casa no domingo, foi também a minha crença na necessidade de uma mudança política no Brasil, que me cativou a ir para as ruas. O governo de Dilma está fragilizado pelos escândalos de corrupção, a economia está em queda, o desemprego começa a surgir no horizonte. A hora de agir é agora. Se é com PT, PMDB, PSDB, para mim tanto faz. Eu não posso sequer votar. Mas que alguma coisa precisa ser feita, é um facto.
Seria de esperar que um movimento pacífico, dito a favor do Brasil, fosse resultar em unanimidade de opiniões, mas não. Apesar do protesto ter sido oficialmente contra a corrupção e o governo, várias foram as vozes contra o dia 15 de março. Não conseguirei reproduzir todas as críticas que se fizeram ouvir, mas eis algumas: “os manifestantes vestiam t-shirts da seleção nacional, da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), um dos órgãos mais corruptos do Brasil, e pediam o fim da corrupção. Como são hipócritas!”, ou “Os manifestantes pediram o regresso da ditadura militar, que absurdo!”
O que tentei explicar a algumas das pessoas, que me confrontaram com este tipo de crítica, foi – e volto a sublinhar que estou apenas a falar da minha experiência – que estão a desvirtuar o que aconteceu. Primeiro, quem saiu de casa com uma t-shirt da seleção nacional, não pensou que estava a vestir uma camisola de uma instituição, mas sim, que ostentava as cores da bandeira nacional. Dessa forma, o objetivo era mostrar que a luta era apartidária, em nome do país. Além disso, quem afirmou que os milhões que estavam nas ruas queriam o regresso dos militares no poder, quis apenas diminuir a legitimidade dos protestos. A verdade é que a grande maioria estava nas ruas a favor da democracia, por um país melhor e mais justo.
Fazendo um balanço, depois de domingo, confirmei que no Brasil impera a generalização, de parte a parte. Às vezes parece que a maioria dos brasileiros nasceu com uns óculos especiais postos, nos quais só se conseguem ver as cores preto e branco. As áreas cinzentas passam despercebidas. E elas são tantas.
Se pudesse ter um desejo para o Brasil era o de mais tolerância. Que tal deixar deixarmos cair o muro invisível que nos separa e conversarmos mais?

Juliana Pereira Martins
Jornalista
Correspondente no Brasil

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