Os mundos que Agostinho da Silva imaginou para o Atlântico Sul ganharam vida

A exposição "O Estado do Mundo: Museu do Atlântico Sul", que pode ser vista até 15 de janeiro no Pavilhão Branco, em Lisboa, parte de uma ideia de Agostinho da Silva e transporta-a para os nossos dias. Reflexões no presente para construir um futuro mais dialogante.

Os mundos que Agostinho da Silva imaginou para o Atlântico Sul ganharam vida
© Mercês Tomaz Gomes

A exposição “O Estado do Mundo: Museu do Atlântico Sul” traz para os dias de hoje o projeto imaginado pelo filósofo e educador português Agostinho da Silva durante os seus anos de exílio no Brasil: um museu dedicado “à capacidade fraternal de entrelaçamento do diverso” numa ordem pós-independências. Se cada vez é mais pertinente refletir e debater sobre como construir esta ordem, em “O Estado do Mundo” exploram-se as propostas de 13 artistas, algumas coleções de caráter etnográfico, e ainda uma diversa documentação sobre processos emancipatórios em nações africanas que registam as reflexões de um pensador que questionou o que à sua época não era questionado.

Se tivesse ganhado forma, o Museu do Atlântico Sul teria como “casa” a fortaleza de São Marcelo em Salvador da Bahia, no Brasil. A ambição deste espaço museológico seria mostrar a Arte e artes que se fazem numa área geográfica que vai desde a Venezuela até à Antártida. Não aconteceu, mas o curador Marcelo Rezende pegou naquele que seria o “Novo Equador” – nas palavras de Agostinho da Silva – e propõe leituras para novas formas de interação cultural e política.

Estão em exposição cartas que Agostinho escreveu solicitando peças e objetos vários a integrar nesse futuro museu, solicitadas por si a diversas entidades de países africanos, asiáticos e das Américas. Essa vontade enquadra-se num conjunto de esforços políticos que levou a cabo durante o seu exílio no Brasil, entre 1944 e 1969, orientados por uma profunda reflexão sobre a “Presença Portuguesa” e “uma intensa especulação crítica sobre a reorganização das estruturas de poder em escala global”, como pode ler-se na folha de sala da exposição.

Partindo da presença colonial portuguesa e das suas consequências, Agostinho aplicou a sua investigação ao que considera por vir a ser “outro processo de submissão por vir: um, no qual as nações capitalistas e socialistas no Ocidente encontrariam com o tempo um acordo, uma entente, em que novas formas de imperialismo e exploração determinariam as regras globais”, explica o mesmo texto.

E antes que se pense que esta possibilidade de “museu” está refém do passado, importa lembrar que se procura aqui acompanhar o pensamento de Agostinho para propor caminhos para as necessidades do presente, através de “uma experiência museológica orientada não para o passado, mas para o futuro e os seus embates”, como sublinha Marcelo Rezende.

Caminhos esses explorados pelos artistas convidados a participar nesta experiência, a saber, Assaf Gruber, Charbel-joseph H. Boutros, Gisela Casimiro e Rodrigo Ribeiro Saturnino (ROD), Jacira da Conceição, Jonathan Monk, Juraci Dórea, Luisa Mota, Marcelino Santos, Márcio Carvalho, Maxim Malhado, Tenzin Phuntsog e Tuti Minervino.

Apontamento biográfico sobre Agostinho da Silva, um Pensador com maiúscula

A Junta Nacional de Educação incumbiu Agostinho da Silva de fundar o Centro de Estudos de Filologia, que viu a luz do dia em 1931, posteriormente transformado no Centro de Linguística da Universidade Clássica de Lisboa. Em 1935, o filósofo portuense foi demitido e ficou impossibilitado de exercer as funções de professor do ensino oficial por se ter recusado a cumprir a chamada “Lei Cabral”. Ou seja, recusou-se a assinar uma declaração em que garantisse não pertencer a qualquer organização secreta. Com efeito, não pertencia, mas assinar tal documento ia contra as suas convicções pessoais.

Passou assim a dar aulas particulares, de 1935 a 1944, entre Madrid e Lisboa. O ano de 44 assinala outro momento, o da sua partida para o Brasil após ter sido excomungado pela Igreja. Do outro lado do Atlântico ocupou cargos importantes no domínio da investigação histórica, a par das funções de docente em universidades brasileiras e nos chamados Colégios Libres do Uruguai e Argentina.

Adquiriu a cidadania brasileira em 1958 e uma década depois, sensivelmente, decidiu regressar a Portugal e foi reintegrado no Ensino Superior, na qualidade de aposentado como Professor Titular das Universidades Federais do Brasil.

Para além de professor, filósofo e investigador, George Agostinho Batista da Silva destacou-se também como escritor. Estão publicadas mais de 60 obras da sua lavra, muitas delas durante a sua estada no Brasil, como, por exemplo, "Sentido Histórico das Civilizações Clássicas" (1929), "A Religião Grega2 (1930), "Miguel Eyquem, senhor de Montaigne" (1933), "A Vida de Francisco de Assis" (1938), "A Vida de Moisés" (1938), "Sete Cartas a um Jovem Filósofo" (1945), "Herta. Teresinha. Joan" (1953), "Reflexão à margem da literatura portuguesa" (1957), "Uns Poemas de Agostinho" (1989), "Do Agostinho em torno de Pessoa" (1990) e "Ir à Índia sem Abandonar Portugal" (1994).

Morreu a 3 de abril de 1994, em Lisboa, e até ao fim da vida questionou, indagou, desassossegou quem com ele se cruzou e/ou leu a sua obra. Em “O Estado do Mundo: Museu do Atlântico Sul” pode redescobrir o seu desassossego através de novos olhares nela reunidos pelo curador Marcelo Rezende. A entrada é gratuita, e aguarda por si de terça a domingo, das 10h às 13h/14h às 18h até dia 15 de janeiro, no Pavilhão Branco, em Lisboa.

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