Alexandra Paio, Docente do ISCTE-IUL

IA 2023

Estamos perante uma oportunidade de fazer as coisas de uma nova maneira, criando novas práticas, empresas, coletivos ou startups que liderem a revolução com novas abordagens e sejam capazes de inspirar outros a participar.

Estamos em contagem decrescente para receber 2023, o Ano Europeu das Competências. A transição digital-ecológica está a proporcionar novas oportunidades de emprego no espaço europeu, contudo, esta nova realidade exige, também, novas competências para enfrentar os avanços na automatização e inteligência artificial por um lado e a desigualdade, diversidade e identidade por outro.

O índice de digitalidade da economia europeia revela que quatro em cada dez adultos carecem de competências digitais básicas. Esta situação é mais crítica quando a previsão é que, até 2050, a incorporação efetiva dos avanços tecnológicos seja sentida em todos os aspetos da nossa vida quotidiana. Adicionalmente, a revista “The Economist” sublinha que, até 2037, 47% do trabalho realizado pelas pessoas terá sido substituído por robôs, mesmo aqueles com formação universitária.

É claro que ao longo da história da humanidade, o progresso tecnológico sempre permitiu ao mesmo tempo dar e tirar poder de inovação. Logo, a inteligência artificial está a transformar a maneira como projetamos e construímos os nossos edifícios e cidades. O que parecia há alguns anos ficção científica é cada vez mais um facto.

“A Inteligência Artificial pode ser usada para digitalizar processos, gerenciar, aprimorar a qualidade do transporte público, identificar padrões e tendências nos dados que são coletados da cidade e outras aplicações. A Inteligência Artificial pode ajudar a fornecer informações precisas sobre a cidade, aumentar a eficiência energética, melhorar a qualidade do ar e melhorar a segurança pública.”

O parágrafo acima foi escrito pelo ChatGPT, um “robô de conversa” do laboratório de inteligência artificial OpenAI, cofundado por Elon Musk em novembro, que é capaz de escrever notícias em várias línguas, compor músicas e programar em JavaScript e Python. Programas de IA como o DALL·E e Midjorney, por exemplo, tornam possível, num minuto, digitar algumas palavras relacionadas com as suas preferências e a plataforma gera uma imagem em consonância.

Arquitetos, designers e outros criativos assistiram à chegada destes geradores de IA texto-imagem com uma mistura de entusiasmo e apreensão.  Os dados e os códigos tornam-se mais acessíveis e a sua utilização é cada vez mais fácil para o público em geral. Mas não só. É também uma oportunidade de fazer as coisas de uma nova maneira, criando novas práticas, empresas, coletivos ou startups que liderem a revolução com novas abordagens e que sejam capazes de inspirar outros a participar.

É evidente que os designers de hoje enfrentam desafios globais com a integração de tecnologias digitais no ambiente construído, e para as enfrentar necessitam de conhecimentos muito mais amplos do que os que são proporcionados pela educação universitária tradicional monodisciplinar. Os novos profissionais têm de se familiarizar com uma abordagem transdisciplinar que ajudará a mobilizar especialistas e comunidades de diferentes áreas para resolver problemas nas mais diversas escalas, desde a local à nacional e global.

Proving Ground, Shapediver, Digital Blue Foam e Spacemaker são apenas algumas empresas que já fornecem soluções e sistemas inteligentes para desenhar edifícios.  A relevância disciplinar da arquitetura na sociedade não pode, por todas estas razões, deixar de abraçar um novo conjunto de competências indispensáveis ao desenvolvimento de novas formas de fazer. Portugal tem uma vasta oferta de programas de formação para a atualização e reconversão de competências em diferentes áreas.

Ao imaginarmos o futuro hoje, é impossível dissociá-lo de uma realidade independente da Inteligência Artificial. Somos parte da solução, não se esqueçam.

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