A poesia “desabrigada” de Rui Chafes

Rui Chafes idealizou dois momentos na Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva. Chamou-lhe "Desabrigo" e convida o visitante a deambular pelo espaço, desvendando, traçando caminhos. Para ver e rever até dia 15 de janeiro de 2023.

A poesia “desabrigada” de Rui Chafes
"Desabrigo", Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva

“Desabrigo” é o título da exposição de Rui Chafes na Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva (FAVS), fruto da colaboração com a Galeria Filomena Soares, em parceria com a Fundação Carmona e Costa. A expressão desabrigo remete para “exposição à intempérie” e “desamparo; abandono”, em sentido figurado. E serve ainda de título a uma série de três esculturas agora expostas na FAVS, duas delas pela primeira vez.

O visitante tenderá a subir a escadaria que conduz à galeria grande do museu, onde se depara com as obras da série “Desabrigo” (I, II, III), de 2020. Suspensas, tensas e serenas, perturbadoras e, no entanto, apaziguadoras. Para Chafes o ferro e o fogo não são matérias, mas sim forças. O que leva a uma observação mais demorada das chamas esculpidas no interior dos três “casulos suspensos”.

O visitante sabe que existe um segundo momento nesta exposição, pelo que se parte em busca da escultura em falta, “Isto não sou eu”, criada especificamente para duas salas – “dois espaços separados por mais de um século na sua génese: o edifício onde funcionou a Fábrica de Tecidos de Seda, de meados do século XVIII, e o edifício fabril, que compõe a galeria grande, construído em 1923” – elucida o Museu. O mais interessante é que a escultura impede a passagem entre elas. As salas. É preciso circular em volta do espaço para ver ambas perspetivas. Desenhar outro percurso.

“Dois momentos e uma mesma vontade de encarar o vazio como único destino possível da arte. Como no final não iremos encontrar nada, o melhor é irmos vendo quem vamos sendo. Ainda não somos o que fomos, ainda estamos a caminho de nós próprios”, lê-se numa nota de imprensa que cita o artista, Prémio Pessoa 2015 que, em 2021, foi galardoado com o prémio da Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA), para as artes visuais.

“Isto não sou eu” é uma escultura menos orgânica, diferente das demais e das que lhe antecedem no tempo, despojada, quase minimal. A contemplação apela ao visitante, e a imaginação solta-se. Chafes, numa entrevista, colocou a tónica nisso mesmo, a imaginação, dizendo “o único poder que me interessa é o da imaginação, o que tem a capacidade de criar mundos e contramundos, abrir portas para mim e para os outros”.

Um universo muito sui generis

Chafes é autor de uma obra singular e atemporal. Concluiu a licenciatura em Escultura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e frequentou a Academia de Arte de Düsseldorf, sob a direção de Gerhard Merz. As suas principais referências são o gótico tardio, o romantismo alemão e o legado de Marcel Duchamp e Joseph Beuys. O seu formalismo rigoroso e sentido estético raro elevaram-no a nome maior no panorama das artes nacionais. Mas não só. A sua obra é, também, reconhecida internacionalmente.

Além da escultura, o artista desenvolve também a prática de desenho, e é autor de reflexão teórica publicada em obras como “Entre o Céu e a Terra” (2012), tendo ainda traduzido e editado obras seminais do romantismo alemão. Do seu longo percurso expositivo, destacam-se as Representações Oficiais Portuguesas às Bienais de Veneza, em 1995, e de São Paulo, em 2013.

A exposição pode ser visitada até 15 de janeiro de 2023.

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