“Dezassete anos das nossas vidas desapareceram em menos de dezassete minutos. Destruição total.” Este é parte do relato de um amigo de Famalicão da Serra, Guarda, que viu um investimento de quase duas décadas esfumar-se no trágico incêndio que destruiu 25% do Parque Natural da Serra da Estrela.
As histórias multiplicam-se e ganham destaque pelos piores motivos: perda, perdas, medo, muito medo, destruição, desgaste, desespero… Enfim, uma súmula das já incontáveis dificuldades das pessoas que moram neste interior de Portugal.
“A minha vizinha”, continuou o meu amigo, “ligou-me em desespero porque sabia que a minha quinta e a minha casa estavam a ser tomadas pelo fogo, mas nada pude fazer. Ninguém estava lá.” A desgraça é tão visível que só as memórias do que terá sido aquele lugar ficaram. O resto é um manto horrendo de negro.
Nós, os que moramos com vista para a imponente Serra da Estrela, os que viveram e vivem tantas vidas de pastoreio, os que cuidam destes terrenos de geração em geração, ou os que guardam o património familiar – que é do mundo – estamos agora tão feridos quanto as feridas expostas da Serra mais alta de Portugal continental.
À desolação de ver uma grande parte do parque natural do país reduzir-se a cinzas, junta-se a nossa revolta diante da incompetência de alguns profissionais de jornalismo – convertidos em enviados especiais vindos da Lisboa capital ao interior rural –, que entram por descrições histéricas e estéreis, assentes em estereótipos e falta de conhecimento.
Bastou estar atenta aos infindáveis diretos da tragédia para ouvir pérolas como: “ O senhor tem visto estranhos por aqui?”, perguntava o “jornalista-CSI” da Lisboa capital a um dos autarcas indignados com as imensas perdas que um incêndio de 11 dias que tinha provocado.
O parque património da UNESCO está irremediavelmente ferido por décadas, e enquanto o Governo tenta atirar culpas a desconhecidos, os jornalistas tentam encontrar incendiários num interior só conhecido por eles, os autarcas, desentendidos entre si, disparam em todas as direções, e os moradores e proprietários resignam-se a uma profunda tristeza de perda e destruição.
Para quem cá vive, estes foram seguramente os 11 dias e as 11 noites mais tristes de sempre. Por aqui, um manto imenso de luto tudo cobre.