A crescente influência dos critérios ESG (Environmental, Social and Governance) e de macrotendências como a transição digital, transição energética e alterações sociodemográficas, na alocação de investimentos, definição de políticas e orientação de comportamentos continua a causar estranheza e a perceção de que se trata apenas de algo passageiro. Outros, ainda mais críticos, consideram que o “movimento” ESG é uma deriva do movimento “woke”, com objetivos doutrinários e ideológicos.
Essa crítica é compreensível, tendo em conta a tendência cada vez mais evidente de intervencionismo governamental, quase sempre ideológico e com laivos de fundamentalismo progressista. No entanto, parece ser demasiadamente extremada porque “atira o bebé fora com a água do banho” uma vez que os fatores criadores de valor por via do ESG contêm (mesmo) muitas características altamente positivas, recomendáveis e conducentes a uma melhoria das organizações e da qualidade de vida em geral.
Mas, reconheça-se, as dinâmicas ESG têm uma origem “top-down”, “vêm de cima”, com legitimidade democrática no mínimo discutível e isso é um tema importante a discutir.
Vem isto a propósito do anúncio, nesta quarta-feira, de que a União Europeia aprovou o fim da venda de veículos com motores de combustão até 2035 na Europa. A medida destina-se a “ajudar a alcançar os objetivos climáticos do continente, em particular a neutralidade de carbono até 2050”. É algo que vem no seguimento das tendências em curso, mas que terá um impacto brutal na indústria e na vida quotidiana.
Esta é apenas mais uma evidência de como este comboio já saiu da estação há bastante tempo e ganha cada vez mais velocidade. Há ainda visíveis limitações de implementação nas empresas e no setor financeiro que advêm sobretudo do facto de a taxonomia e regulamentação serem ainda emergentes e imperfeitas, bem como de grande carência de know-how ao nível dos recursos humanos, nomeadamente nos altos quadros. Mas, goste-se ou não, o ESG pode estranhar-se, mas vai-se entranhando.