Esta semana ficou marcada pela má notícia para as famílias com crédito à habitação: a taxa Euribor a seis meses, que é o indexante mais usado nos créditos existentes em Portugal, atingiu esta quarta-feira um valor positivo (de 0,034%), numa viragem que ocorre após quase sete anos a acumular um valor negativo.
Como consequência a prestação da casa vai ser agravada para muitas famílias, num contexto já de si adverso para os portugueses, tendo em conta a subida dos preços da generalidade dos bens e serviços e os avisos da autoridade liderada por Christine Lagarde sobre a variação das taxas de juro, que tendem a tornar-se mais preocupantes para quem tem crédito à habitação.
Seguindo, agora, os passos da Euribor a 12 meses, que está positiva desde abril – apenas a taxa a três meses se mantém negativa, prevendo-se que quebre a barreira de zero dentro de poucas semanas –, as taxas Euribor a seis meses deverão continuar a subir nos próximos meses, como consequência da inflação. Economistas antecipam: o que se esperava ser um aumento de preços conjuntural e uma situação financeira transitória será algo mais duradouro. Logo, com maior impacto para o orçamento mensal dos consumidores, já de si encolhido com a escalada dos preços nos últimos meses.
Com o aumento dos preços da energia e dos bens alimentares, as famílias mais afetadas são indubitavelmente as das classes mais baixas de rendimento, que têm visto diminuir o seu poder de compra de forma galopante. Não fosse a inflação um imposto escondido, cego e implacável que afeta de forma desigual os consumidores, trabalhadores e pensionistas mais pobres. E, diga-se, também os aforradores que com o maior esforço que têm de fazer para comprar e garantir os consumos básicos como alimentação, habitação, educação ou outras despesas com transportes e saúde, pouco ou nada restará para poupança.
A culpa é da inflação, numa tendência foi reforçada com o início da invasão da Ucrânia pela Rússia, que o Governo insiste em defender como fenómeno conjuntural e medidas ténues para colmatar os seus impactos nas famílias e empresas. A tendência de subida é alarmante em toda a zona euro que acelerou para 8,1% em maio, estando já Portugal na média ao atingir os 8% – valor mais elevado desde fevereiro de 1993.
Face ao cenário de incerteza elevada, o Banco Central Europeu (BCE) já sinalizou uma subida das taxas de juro diretoras, destacando a importância de evitar a fragmentação financeira na zona do euro – que a resposta orçamental e monetária combinada manteve sob controlo durante a pandemia. Algo que foi muito prejudicial no passado, com os bancos estrangeiros a cobrarem juros mais elevados às empresas do sul da Europa, face às do norte da Europa, o que agravou ainda mais a situação dos países atingidos pela crise da dívida soberana.
Não é de estranhar, por isso, que, segundo o “Financial Times”, o BCE irá intervir para evitar um agravamento dos custos de financiamento dos membros da moeda única através da criação de um novo programa de compra de ativos para proteger os países em piores condições orçamentais com elevados níveis de dívida pública, como Itália ou Portugal, de serem alvo de ataques especulativos que impeçam o acesso aos mercados a juros sustentáveis.
Aguarda-se agora a resposta de Frankfurt à insustentável era de juros baixos e dinheiro barato, após 19 anos de políticas monetárias para combater a crise e estimular as economias, que restringia o objetivo do BCE ao controlo da inflação a um nível abaixo de 2%.