Perante o cenário da presidência de Donald Trump, o peso mexicano tem sido a moeda mais vulnerável e sensível. No próprio dia das eleições nos Estados Unidos, este já estava a sofrer uma das maiores desvalorizações das principais moedas emergentes. Numa questão de horas, afundou quase 15% até o câmbio se situar ligeiramente acima de 20, registando o pior nível de sempre.
O mercado teme que Trump decida implementar políticas que possam ser prejudiciais para a saúde económica do vizinho do Sul, o que está neste momento a influenciar a debilidade da divisa mexicana. É possível que se venha a cobrar um imposto de 35% sobre produtos importados do México para os EUA e que 11 milhões de imigrantes sejam deportados por falta de documentação, dos quais aproximadamente metade serão mexicanos. Poderemos vir a assistir ainda à construção do famoso muro de mais de 1000 milhas na fronteira, assim como a uma redução dos investimentos diretos no país por parte dos EUA.
Numa tentativa de manter a cotação do peso, depois da descida após as eleições americanas, o Banco Central do México (BCM) procedeu, em novembro, à subida das taxas de juro em 25 pontos base, até 5,25%. Tratava-se da quinta subida da taxa de juro de referência no mesmo ano, o que se traduziu num aumento global de 225 pontos base relativamente a dezembro de 2015. Há que sublinhar que, ainda antes das eleições nos EUA, a economia mexicana, e o peso em particular, se tinham mostrado particularmente vulneráveis às subidas das taxas de juro nos EUA e aos baixos preços do petróleo.
Através da análise dos principais dados macroeconómicos do país, percebemos que no terceiro trimestre do ano a economia Mexicana teve o seu pior desempenho relativamente aos últimos dois anos, com um crescimento de apenas 2% em termos anuais. A sua dependência económica do petróleo, que ronda 15% das exportações, também penalizou os dados da balança comercial, provocando um aumento no défice, que alcançou valores máximos em 2016.
Num tom um pouco mais otimista, a inflação situa-se agora no objetivo de médio prazo do Banco Central, que está estabelecido entre os 2% e os 4%, encontrando-se atualmente nos 3,1%. Da mesma forma, as taxas de juro estão em níveis positivos a rondar os 2% pela primeira vez desde 2008.
No curto prazo, a principal ameaça para a economia mexicana tem origem na redução do investimento dos EUA no país, causada sobretudo pela incerteza política. As novas tarifas aduaneiras mencionadas pela administração Trump podem rondar em média cerca de 20%, e o facto de o peso ter desvalorizado acima desse valor tem permitido compensar o impacto de qualquer tarifa cobrada. Em relação a uma possível saída da NAFTA, tudo faz pensar que estamos neste momento perante um facto pouco provável e que, a seu tempo, poderá realizar-se uma renegociação do tratado.
No plano político, a ordem executiva de Donald Trump para a construção do muro na fronteira e o acumular de uma retórica anti-México tem vindo a piorar as más relações entre os dois países. Como resultado, o político de esquerda Andrés Manuel López Obrador tem vindo a ganhar terreno nas sondagens para as eleições do próximo ano. A vitória de Obrador seria um grande passo para o desconhecido, sobretudo tendo em conta que durante os últimos 12 anos tem estado outro partido no poder.
A recente venda em massa de pesos deixou esta moeda em níveis muito baixos e subvalorizada. Receamos ainda que, à medida que se vão desenvolvendo os acontecimentos na administração Trump, se vejam perdas graduais da moeda desde o nível atual. A política do vizinho do Norte está a debilitar a economia mexicana.