André Marquet, Fundador da Productized.co

Inovação em Estado Beta: como se passa de um deserto para um vale fértil?

A disponibilidade de engenheiros altamente qualificados, e outros profissionais, a salários comparativamente baixos, é um fator importante para investimentos 'nearshore' no setor das TIC em Portugal.

A Huawei, um dos maiores fabricantes de equipamento de telecomunicações, nasceu há menos de 30 anos. Porém, não deixa de ser curioso constatar que o INESC, um importante centro de investigação português, desenvolvia, à época da criação da Huawei, centrais telefónicas RDIS que eram muito mais avançadas do que qualquer produto que a Huawei tivesse no seu portefólio durante os seus primeiros dez anos de vida. Como se explica então que esta empresa tenha crescido de forma tão distinta?

Recordemos, a propósito, Shimon Peres – estadista e líder incansável na procura da transformação tecnológica da economia israelita. Primeiro, como um dos grandes promotores da substituição de importações militares, devido ao embargo de diversos países nas décadas de sessenta e setenta, e mais tarde como responsável pela criação do cluster aeronáutico israelita, hoje um dos mais avançados do mundo. Shimon Peres era, também, um grande patriota, como há muito poucos políticos fora da realidade israelita. Afinal, que líder acredita que é possível passar de um deserto para um vale fértil?

Obviamente que há uma série de razões para estes sucessos. No caso da Huawei, nomeadamente, a dimensão do mercado chinês. Mas, no caso israelita essa dimensão é exígua. No entanto, há um ponto em comum com estes casos – o da força de vontade e da capacidade dos seus líderes de contrariarem as fatalidades nacionais e a ditadura da geografia. De as querer ultrapassar, com uma ambição mundial e uma vontade resoluta.

Portugal, sendo um país pequeno e com recursos financeiros limitados para alimentar uma industria nacional de defesa e segurança, que viva exclusivamente do mercado interno, tem de aspirar a desenvolver uma economia altamente especializada, de produtos e serviços de grande valor acrescentado, altamente competitivos no mercado global. No entanto, só a existência de uma industria na área das TIC, também com valências de defesa, dotará o país da capacidade de participar internacionalmente, de forma ativa, no novo quadro de sistemas de defesa em que participa na NATO e noutros fóruns, que é caracterizado por ser incrementalmente sofisticado e regido pelo acesso rápido e fidedigno a informação tática e estratégica – seja dando resposta às necessidades de aquisição de sistemas e respetivos meios tecnológicos, para as necessidades de defesa nacionais, seja através do capital intelectual, para dotar o país de voz capacitada nos quadros internacionais que integra.

Assistimos hoje a uma importância redobrada da chamada sociedade ou economia de inovação, e importa repensar quais são as linhas de força que podem ajudar a desenhar o novo quadro de desenvolvimento de tecnologias de defesa e a sua interação com o tecido da chamada economia real.

Inspirado em alguns casos de sucesso nacionais no setor das TIC de Defesa, e comparando com as melhores práticas internacionais, e criadas melhores condições para emergência de produtos competitivos e novas startups das TIC de Defesa, que permitam a emergência de um cluster altamente especializado de empresas, que possam atuar indistintamente no setor civil e militar, consoante as condicionantes conjunturais do mercado, e identificando áreas nas quais Portugal tem já alguma base instalada, e onde poderá apostar com vista à sua diferenciação no quadro das suas parcerias internacionais no âmbito da União Europeia, da NATO e da CPLP – materializado através de uma aceleradora que deverá ser criada para o efeito, sob égide conjunta do Ministério da Defesa e do Ministério da Economia.

A disponibilidade de engenheiros altamente qualificados, e outros profissionais, a salários comparativamente baixos, é um fator importante para investimentos nearshore no setor das TIC em Portugal. O Fórum Económico Mundial posiciona Portugal em oitavo lugar em 144 países, no ranking de disponibilidade de cientistas e engenheiros, e em 11º lugar no acesso às ultimas tecnologias. Está, por isso, numa posição cimeira para fazer face a um conjunto de desafios de readaptação da sua estrutura produtiva – estando os principais indicadores de competitividade técnica assegurados, o número de investigadores por mil pessoas ativas é de 8,5 em Portugal, contra 6,6 na média da UE, o número de publicações científicas por milhão de habitantes é de 1,658 em Portugal, contra 1,706 na média da UE.

O facto de ser extremamente eficiente desenvolver em Portugal é uma “arma” tanto para justificar o desenvolvimento endógeno, como na captação de investimento direto estrangeiro, também, para as empresas de equipamentos de defesa. Além disso, existe um conjunto de oportunidades tecnológicas de desenvolvimento de projetos de bandeira nacional para garantir os interesses estratégicos, que o Estado deverá definir como prioritárias na agenda de desenvolvimento no quadro de médio-prazo (5 anos) e de longo-prazo (15 anos), num cenário dominado pela conceito de especialização especifica derivado da adoção da chamada Smart Defense, em que cada uma das oportunidades tecnológicas funciona como programa âncora em que podem resultar spinoffs ou serem criadas startups para responder a desafios parciais do oportunidade global – como sejam os Veículos Aéreos Não-tripulados (VANs), a aviação de transporte, a cibersegurança e a ciberdefesa. E, a médio prazo, a Vigilância Marítima em Tempo real, os Autonomous Underwater Vehicules (AUVs), e o controlo do leito submarino.

Os objetivos do Acelerador de Defesa seriam:

  1. desenvolver tecnologias de duplo-uso, isto é, promover spinoffs de empresas de defesa que queiram desenvolver estratégias de produto com ofertas para o mercado civil, e vice-versa;
  2. promover concursos e desafios para o desenvolvimento de projetos nas áreas de defesa e segurança, com base em problemas reais das Forças Armadas Portuguesas e de parceiros internacionais;
  3. incorporar as melhores práticas de desenvolvimento de produtos versus serviços, numa lógica de vantagens e desvantagens;
  4. possibilitar às startups o acesso a laboratórios de produção de protótipos devidamente equipados com sistemas CAD (Computer Aided Design), assistência de simulação, design de PCB, suportando ferramentas avançadas de desenho em computador, modelação 3D e testes mecânicos, e com níveis de sigilo e confidencialidade que laboratórios civis ou abertos não permitem;
  5. atrair a Portugal as melhores mentes, numa visão “Escola de Sagres”, em que os grandes desafios atraem as grande mentes; e
  6. coordenar o esforço de desenvolvimento associado às oportunidades tecnológicas no âmbito da industria nacional de BTID, e apoiar a criação de novas empresas de BTID.

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