Filipe Alves

O legado de Soares

Afonso Costa, António de Oliveira Salazar, Álvaro Cunhal e Mário Soares foram os quatro grandes da política portuguesa no século XX. Porém, apenas o último dos quatro deixará como legado um país livre, democrático, tolerante e aberto ao mundo.

Mário Soares, falecido hoje aos 92 anos, após várias semanas de internamento, foi uma figura “larger than life”. Em especial para as pessoas da geração do autor destas linhas, que cresceram nas décadas de 80 e 90, quando o então Presidente da República gozava de um enorme prestígio na sociedade portuguesa, quase ao nível de um monarca reinante.

Soares foi grande porque soube ser um visionário que conduziu o seu povo pelo caminho certo da História, rumo à liberdade e ao desenvolvimento, fugindo à sina de Kerensky português que muitos lhe vaticinavam nos idos de 75. Para o bem e para o mal, Soares foi o que, à sua pequena escala, Portugal teve de mais parecido com um Churchill ou um De Gaulle: como estes, Soares foi um grande homem, bem como um líder controverso, com luzes e também algumas sombras.

Ainda hoje há quem não lhe perdoe o seu papel no processo de descolonização, que na verdade estava condenado à partida a correr mal, devido à forma como o Estado Novo se agarrou às colónias. Outros, à esquerda, não lhe perdoam o facto de ter colocado Portugal no campo dos Estados Unidos, da NATO e da Europa. Foi graças a Soares e a outros líderes moderados que o nosso País não se transformou numa Albânia da Península Ibérica e optou antes pelo caminho da democracia, da economia de mercado e da integração na União Europeia.

Devemos, por isso, muito a Soares, sem diminuir a gratidão que também merecem figuras como Salgueiro Maia – exemplo maior de coragem e integridade – e todos os valentes que arriscaram a vida pela liberdade, antes e depois do 25 de abril.

Afonso Costa, António de Oliveira Salazar, Álvaro Cunhal e Mário Soares foram os quatro grandes da política portuguesa no século XX. Porém, apenas o último dos quatro deixará como legado um país livre, democrático, tolerante e aberto ao mundo. Realçar isto é, provavelmente, o melhor elogio que podemos fazer a Mário Soares.

(nota: artigo de opinião escrito no dia do falecimento de Mário Soares)

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