Com uma notável falta de humildade democrática, a coligação de direita limita-se a fazer oposição à oposição. Nas eleições legislativas, porém, estarão em análise os últimos quatro anos de governação. A austeridade foi – e é – inimiga das novas gerações. A taxa de desemprego jovem cresceu vertiginosamente, o compromisso de qualificação do país ficou mais distante, a emancipação jovem passou a consumar-se ainda mais tardiamente. E, claro está, assistimos ao avolumar dos números da emigração, que o Governo estimulou, apesar de agora dizer o contrário. Eis o retrato de uma realidade cruel: a realidade da presente legislatura.
Nas próximas eleições, a direita vai procurar a sua grande oportunidade. Imagine-se só, depois de tanta negligência, conflitualidade e desorientação, o que seria do nosso país se, chegados a outubro, PSD ou CDS voltassem a integrar um Governo em Portugal. O que seria de Portugal perante a Europa, sobre a qual nos curvámos indecorosamente? O que seria feito do Serviço Nacional de Saúde, da Escola Pública, da Cultura, do Ambiente, do Interior? E imagine-se quão desrespeitada seria novamente a Constituição da República Portuguesa. É um paradoxo monumental ter de ouvir o Governo recordista no desrespeito pela Constituição querer introduzir-lhe novas regras. Pena que não tenha a mesma vontade para limitar a pobreza infantil e juvenil, a precariedade e o desemprego jovem. Este Governo lida com indiferença com o que é realmente importante.
Diz-nos a coligação de direita que esta legislatura teve um final feliz. Só alguém com uma profunda insensibilidade social poderia afirmá-lo. O que esta declaração encerra em si de mais perverso é a ideia de que cada um está entregue a si mesmo. E o combate político que os socialistas travam prende-se exactamente com este ponto: não pactuar com uma sociedade onde cada um fica entregue a si mesmo, em que o egoísmo tira a vez à solidariedade, em que o “eu” toma o lugar do «nós». Trata-se de um combate de fundo, pela humanização da política e da vida pública, pela qualificação da democracia e, fundamentalmente, pela justiça social. Este é um combate que tem de unir gerações, ao invés de lhes voltar as costas, e é uma luta para a qual os jovens portugueses estão disponíveis.
Há lutas para as quais a generalidade dos jovens está disponível e lutas para as quais só algumas plateias jovens estão disponíveis. Os jovens portugueses não estão disponíveis para ser parte do problema, mas sim parte da solução. E, bem a propósito das notícias das últimas semanas, os jovens portugueses também não estão disponíveis para um Governo que queira cortar os salários e as pensões dos pais e avós deste país. As novas gerações não convivem bem com a perda de direitos e a degradação das condições de vida das gerações que as antecederam. Portugal tem mesmo de ser um país para todos: para os mais e menos jovens, para os mais e menos qualificados, para os mais e menos afortunados.
Este Governo não é um mito. E, por mais que a coligação de direita opte pela estratégia da fuga para a frente, acabará por chocar com a realidade. Pedro Passos Coelho e Paulo Portas fizeram uma escolha: só a tomarão em conta no dia em que perderem as eleições.
João Torres
Secretário-geral da Juventude Socialista