Redação

Quem vale mais?

Eduardo tinha 10 anos. No dia 2 de abril, na sua casa no Morro do Alemão, levantou-se do sofá, onde via televisão com a mãe, e sentou-se à beira da porta de casa. Morreu pouco depois com um tiro de fuzil na cabeça, em plena luz do dia, enquanto dezenas de pessoas por ali circulavam. O atirador? Um polícia militar da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora). Imagens de um vídeo amador, feito segundos depois da morte de Eduardo, mostram a criança deitada no chão, ensanguentada, enquanto moradores gritam, incessantemente, “assassinos!” para os militares, que aos poucos se aproximam. A mãe de Eduardo estava perto do filho quando ele foi baleado. Dona Therezinha garantiu, desde o primeiro momento, que foi um polícia que tirou a vida da criança. “Eu marquei a cara dele. Eu nunca vou esquecer o rosto do PM (Polícia Militar) que acabou com a minha vida. Quando eu corri para falar com ele, ele apontou a arma para mim. Eu falei ‘pode me matar, você já acabou com a minha vida’”, disse em declarações ao site da TV Globo.

No mesmo dia, outra tragédia. Thomaz tinha 31 anos. Morreu num acidente de helicóptero, em Carapicuíba, na Grande São Paulo. Além de Thomaz, mais quatro pessoas perderam a vida. Provavelmente, a tragédia entraria de qualquer maneira nos principais noticiários brasileiros, independentemente da identidade de qualquer uma das vítimas. Mas, no caso, o nome de uma delas, acabou por catapultar o caso para uma escala nacional. O apelido de Thomaz era Alckmin. Para quem não sabe, Geraldo Alckmin é o Governador do Estado de São Paulo e Thomaz era o seu filho mais novo.

A tragédia da família Alckmin, a par da morte de Eduardo, trouxe a debate a fragilidade da vida. Na rua, no trabalho, em casa, todos comentavam a tristeza da perda, numa fatalidade, de alguém que se ama.
A compaixão e a tristeza, naturalmente humanas, de quem valoriza a vida, parecia inequivocamente transversal e unânime a toda a sociedade brasileira. Sendo completamente honesta, acredito que em 99% dos casos, o foi de facto.

No entanto, não posso deixar de comentar que, mesmo que se trate de uma pequena percentagem, deparei-me, uma vez mais, com um Brasil tão fragmentado, que até a morte de duas pessoas, ambas de forma trágica, é motivo para se tomarem partidos. Tentarei explicar. Tomemos como exemplo o tweet da ex-candidata a Presidente da República, Luciana Genro. “Tudo bem lamentar a morte do filho do Alckmin. Lamento também. Mas porque não lamentam também a morte do menino de 10 anos vítima de bala perdida?” A mensagem de Luciana Genro reflete bem o momento atual do Brasil, em que tudo é passível de conotação política. Poderei até entender a intenção da sua crítica. Talvez. Mas escrevê-lo publicamente, desta forma, foi absolutamente desnecessário. Talvez sem querer, Luciana Genro acabou por incitar a população a fazer uma comparação entre as duas mortes, dando a entender que uma é mais triste que a outra ou que uma deve ser mais lamentada do que a outra. Na essência, ambas são exatamente iguais.

Naquele dia, duas famílias perderam uma pessoa que amam. Os dramas são de cada um, à sua maneira. Não considero que seja humano dizer que uns sofrem mais que outros. É óbvio que a morte de Eduardo, pela sua idade e pela forma brutal como perdeu a vida, tem uma dimensão, inclusivamente social, que o coloca num patamar de discussão bastante superior. Quanto a isso, nem ouso discutir. Mas, pergunto-me: até na morte temos que tomar partidos? No fim do dia teremos duas famílias, mergulhadas numa enorme dor e despedaçadas. E afinal, quem vale mais?

Juliana Pereira Martins
Jornalista

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