Redação

Tsipras e Putin: uma dupla explosiva?

Uma das principais preocupações de caráter político e de segurança desencadeadas pelo novo governo
grego está relacionada com a aproximação da Grécia à Rússia e a eventualidade da Grécia transformar-se no cavalo de Tróia de Putin dentro da própria União Europeia.

Desde a sua integração no projeto europeu, a Grécia tem sido um pólo regional estratégico, um estado
amigo e politicamente estável, e uma fronteira europeia que funciona como filtro das ameaças vindas
dos países vizinhos. A saída da Grécia da zona euro ou, no cenário mais pessimista, da União Europeia,
teria implicações negativas muito importantes, não só para a segurança europeia, em particular na região
dos Balcãs e no Sudeste Europeu, mas também para o mundo ocidental em geral. Essas implicações
ganham uma dimensão maior sob a lente dos atuais desafios de política externa e de segurança europeia, nomeadamente da Primavera Árabe, dos grandes fluxos de imigrantes clandestinos vindos do Norte de África e Médio Oriente, da expansão do Estado Islâmico e das suas ações terroristas e, last but not least,da guerra na Ucrânia.

Devido aos laços culturais, religiosos e históricos entre as duas nações, Grécia e Rússia criaram fortes
relações diplomáticas, militares e comerciais. É assim possível entender que a Grécia seja um dos poucos
países membros da NATO que faz uso extensivo de armas russas, e que o primeiro diplomata que o
novo primeiro ministro grego, Alexis Tsipras, recebeu em Atenas foi o embaixador da Rússia. E, neste
enquadramento, causa menor estranheza constatar que uma das primeiras declarações de política externa do novo executivo grego foi o protesto contra novas sanções europeias à Rússia.

Contudo, na realidade, a Grécia nunca considerou a sua relação com a Rússia como alternativa à sua
longa e histórica aliança euro-atlântica, quer como membro da UE ou como membro estratégico da
NATO. A aproximação das políticas externas gregas e russas sempre se concretizou na base do interesse recíproco económico e político, e quase sempre dentro do quadro institucional da UE.

A única exceção foi o acordo de cooperação para a implementação do oleoduto de Burgas-Alexandroupolis, para transporte de petróleo da Rússia e do Mar Cáspio para o porto búlgaro de Burgas e para o porto grego de Alexandroupolis, celebrado em 2007 entre o primeiro ministro grego Konstantinos Karamanlis, o primeiro ministro búlgaro, Sergey Stanishev e Vladimir Putin. Entretanto, o início da crise financeira em 2008 obrigou Atenas a focar-se nos seus problemas internos, apostando na solidariedade europeia para a resolução da crise.

Adicionalmente, a guerra entre a Rússia e a Geórgia em 2008 distanciou ainda mais os dois países.
Noutra vertente, nos últimos anos a Grécia tem estado empenhada em consolidar o projeto do gasoduto
Corredor Sul com origem no Azerbaijão, passando pela Turquia e Grécia em direção à Itália. O Corredor
Sul procura reduzir a dependência da Europa Ocidental e do Sul/Sudeste europeus das importações de
gás natural da Rússia.

Todavia, a “carta russa”, continuará a ter um efeito político forte nas negociações económico-financeiras
entre a Grécia e as instituições ocidentais. E o novo primeiro ministro grego já deu sinais claros que utilizará este trunfo político como argumento de pressão sobre os seus homólogos.
Mas o discurso grego de aproximação à Rússia deverá ser mais retórica do que realidade, e o recente
acordo entre o executivo grego e os seus parceiros europeus para a extensão do programa de resgate afasta ainda mais a possibilidade da Grécia se tornar um cavalo de Tróia russo dentro das muralhas europeias.

Evanthia Balla
Professora universitária

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